Às vezes quando eu tenho anseios de parecer intelectual aos olhos das pessoas, vou andando com um livro qualquer debaixo dos braços, e de vez em quando se estou em algum lugar em que posso folhear quase desinteressadamente o mesmo, eu aproveito. Seja num autocarro lotado, dividindo aquela cadeira desconfortável com algum vizinho meio adormecido pelos embalos do veículo, ressonando de maneira vergonhosa depois de transformar um cochilo inocente numa soneca que reivindica uma vida melhor e vários direitos supostamente naturais; ou mesmo em pé, apenas apoiado numa daquelas barras exageradamente altas e trocando cariciais involuntárias com outros passageiros nos solavancos constantes, motivados pelo asfalto irregular e paragens propositadamente bruscas dos motoristas, ou ainda em algum parque que escolho enquanto caminho errático nesta estranha cidade já saturada de estrangeiros que dividem as suas maneiras entre um sotaque nativo sofrível que já não deixa saber a sua origem e uma necessidade quase neurótica de afirmarem sua própria identidade. Finjo compreender o que leio, com minha testa franzida de propósito para parecer que não presto atenção ao que se passa à minha volta, evitando que a minha curiosidade por assuntos supérfluos me atrapalhe. Assim, evito ver a moça que quase tem um orgasmo enquanto fala ao telefone, deixando as casadas ruborizadas de vergonha, provocando nas mulheres de meia-idade aquele olhar ufano e nostálgico e nos rapazes uma vontade enorme de se masturbarem de inveja, com a gula transparecer-lhes nos olhares sorrateiros que trocam entre si. Também faço de contas que não ouço as conversas de comadre, que se multiplicam sem a menor preocupação em esconder os detalhes das histórias que trocam nos breves momentos em que velhas conhecidas se cruzam. E alternando sempre com conselhos intuitivos, as conversas das moças que se acham altamente experientes em homens, assessorando as amigas encalhadas ou mal-amadas. Viro as páginas por puro acaso e sem nenhuma necessidade, já que o que leio está nos olhos inchados de cansaço dos passageiros gordos de dificuldades e nas vozes desamparadas, que reclamam ao vento a sua vida difícil de pobre, que precisa de evitar faltas para não emagrecer de maneira impossível o seu mísero salário. E já cansado de fingir, fecho finalmente o livro que infelizmente já não tem nada para me ensinar.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Não mais que um livro (Ganas de intelectual)
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sexta-feira, 13 de maio de 2011
Presentes para mulheres
Poucas coisas são tão complicadas quanto escolher um presente, disse-me uma vez uma amiga numa dessas rodas de conversa em que se discutem sempre coisas fúteis evitando conscientemente aqueles assuntos como aquecimento global, fome, guerras mundiais, governos tirânicos e tantos outros que nos fazem parecer muito mais inteligentes do que somos na realidade, pois sem sabermos apenas nos limitamos a interpretar discursos televisivos baratos dos mesmos políticos que costumamos a criticar.
Ela dizia que os presentes para homens são mais complicados, difíceis de encontrar, só se fazem objetos práticos, como se fosse um desperdício criar coisas, que mesmo sem nenhuma utilidade podiam ao menos servir para presentear, tal como acontece no caso das mulheres. Tu podes oferecer um ramo de flores, mesmo que vá secar em menos de três dias, um par de sapatos que ela nunca vai usar, ou uma lingerie, que quando muito vai servir apenas para datas que acontecem uma vez por ano, como o dia dos namorados. É fácil surpreender as mulheres, afinal o mundo se prepara à milênios para isso. Já com os homens é diferente. Minha amiga se confortava sabendo que pelo menos, quando oferecesse um presente a um homem, tinha apenas que ser prática para não errar. Podia dar uma sexta de cerveja com a certeza de que em algum domingo à tarde enquanto estivesse a assistir o jogo de futebol, ele se embebedaria sem grandes ambições, um par de sapatos seria sempre ótimo para substituir aquela sandália antiga de couro que dura quase eternamente e alguns tomam banho tão poucas vezes que oferecer um perfume é uma verdadeira economia. Mas entre as vantagens e as desvantagens de se encontrar algum presente que possa servir para alguma coisa, só concordamos que pelo menos todos gostamos mais de receber do que oferecer.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
O que aprendi na universidade
Agora sei muito mais do que antes de entrar para a universidade. Sei por exemplo, que universitário é uma doença que passa com o tempo, que para ser universitário não é preciso comportar-se como tal e que a Universidade é a única coisa que existe para se ir fazendo. Que perfis de entrada e saída são qualquer coisa regulamentada, mas completamente desconhecida, biblioteca de referência é uma ilusão criada pelas universidades modernas e hábitos de pesquisa e investigação científica são mais uma anedota ocidental. Aprendi mais ainda, que os reacionários são sempre universitários e por isso ao terminarem nunca têm boas oportunidades de emprego, que 99% do que vamos fazer na vida prática não se aprende nas grades curriculares, que ninguém se gradua em boa educação, personalidade e caráter e por isso não se espera que um estudante universitário seja bem educado, respeitador dos valores e das leis.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Democracias de fachada
Tenho quase a certeza de já ter falado em algum momento do meu analfabetismo político e por isso nem preciso de me desculpar quando tenho aqueles vislumbres de inteligência, de ideias quase geniais, que na maioria das vezes vêm apenas em forma de perguntas como.
De que serve a Soberania Nacional se alguns continuam a intervir em questões alheias? Ou, como alguém que se impõe por armas sem que tenha sido convidado e tem o descaramento de argumentar de maneira gloriosa, que está a fazer justiça e ainda se convence de que é a melhor solução para os outros, que outros? Aqueles que totalmente impotentes têm apenas que destilar discursos hipócritas de apoio e fingir que sabem que as baixas civis são um mal totalmente necessário para o alcance da liberdade? Uma liberdade desnecessária, igual a tantas outras, falsas e arenosas governadas antes por interesses que são em última instância puramente mercadológicos. A qual nem se pode ter a dignidade de chamá-la utópica, porque ninguém a deseja ansiosamente e já até perdeu a poeticidade daquela que se parece muito com um eterno sopro de esperança, ou uma promessa religiosa.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Crianças são cruéis, velhos são intrujões
Não nada mais sôfrego quanto descobrir que aquelas coisas em que acreditavas e pelas quais colocarias as mãos no fogo (metaforicamente, é claro), não passam de mentiras deslavadas. E não falo daquelas que ouvimos, mas temos a expectativa de que sejam mentiras, como a clássica estória do pai natal – posso até pensar em renas voadoras, mas dificilmente num velho centenário que gasta o seu tempo com crianças que ele nem sabe que existem. Ou a ridícula, mas engraçada estória da cegonha – que criança não se perguntará de onde elas tiram os bebês? Ou dos monstros que saem do armário à noite, felizmente hoje não são os únicos que precisam sair do armário. O coelhinho da páscoa – uma mentira que felizmente só atinge países muito desenvolvidos, ou as promessas dos políticos, que sem dúvida estão destinadas a nunca se cumprirem e várias outras tão ridículas e insólitas. Mas eu falo daquelas que pelo contrário, esperamos até ao fim da vida (não que eu já esteja lá), que se prove que são verdadeiras. “Crianças são anjos e velhos são responsáveis, sábios e comedidos” é sem dúvida a mais nobre de todas. Mesmo que essa tal mídia sensacionalista, muito famosa hoje em dia, nos mostre várias vezes o quanto se tem tornado perigoso acreditar nestas coisas. Entre uma e outra notícia de violência em vários lugares somos obrigados a rever as nossas crenças em relação a isso e perguntar a nós mesmos, quase num sussurro, com medo de que as nossas próprias palavras possam ser as provocadoras da situação:
- Onde estão as nossas maravilhosas crianças, aquelas que nas propagandas nos passam a última esperança de tranqüilidade, que com sua inocência lendária nunca fazem por maldade. Pois é isso mesmo, não agridem por mal, não assaltam por mal e disparam armas por pura curiosidade?
Imagino que a culpa de tudo isso seja dos jogos violentos e dos quadradinhos e bandas desenhadas que inspiram atos heróicos, ou quem sabe dos desenhos animados que falam de valentia e coragem.
E os “velhinhos” em quem antes pensávamos que se podia confiar incondicionalmente e que na sua fragilidade fisiológica tinham sempre à seu favor uma auréola de sabedoria tão antiga e respeitável quanto a sua decadência física?
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