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quinta-feira, 31 de março de 2016

Consumo de uns, miséria de outros

Por que o consumo sem consciência é um problema?
Esta é uma questão para a nossa era, pois o consumo desenfreado e irresponsável de bens essencialmente supérfluos é praticamente uma marca identitária da sociedade contemporânea.
Uma leitura não muito profunda sobre nossos hábitos de consumo é suficiente para nos permitir observar que cada vez mais nos afundamos num regime em que nos convencemos que comprar é sinônimo de felicidade, de ser feliz, ou seja, compramos por que temos a ilusão de que isso nos deixará felizes, ou pelo medo de continuarmos tristes pela falta. Neste sentido as propagandas cumprem o seu papel de nos estimular a consumir enfiando-nos goela abaixo aquelas publicidades machistas onde mulheres são apresentadas como o equivalente a simples objetos, junto com carros, que supostamente tornariam os homens mais atraentes e desejáveis, perfumes que nos fariam a todos irresistíveis, ternos, óculos e outras opulentas bugigangas que nos deixariam supostamente muito mais inteligentes, ou atraentes.
No afã de garantir a continuidade dessa compulsão, a mídia vende à sociedade a ilusão de que nossa capacidade financeira melhorou, deixando-nos viver desse ledo engano, pois, compramos justamente pelo contrário e prova disso é que o que compramos, seja majoritariamente por meio de cartões de crédito, ou de forma parcelada e coisas desnecessárias, descartáveis em poucos dias depois de compradas, peças de roupa, feitas para serem usadas apenas uma vez, entre outros produtos de consumo imediato.
Infelizmente este nosso estilo, não nos deixa tomar ciência dos paradoxos que nos atropelam a todo o momento. O primeiro deles está no fato de que as coisas verdadeiramente essenciais continuam caríssimas e inacessíveis para a grande maioria da população mundial.
Produtos como habitação, saúde e educação, são luxos inalcançáveis para muitas pessoas. Em algumas partes do mundo, as hipotecas de casas tornaram-se num mecanismo altamente predatório para os clientes, mesmo que paradoxalmente lícito.
Em outros, uma casa é um item quase impossível de se obter e muitas pessoas, apenas têm acesso a uma em bairros sem absolutamente nenhuma estrutura social básica (rede de esgoto, energia elétrica, água canalizada, arruamentos, etc.).
A saúde que cada vez mais se mercantiliza por ação de planos privados, e pseudocooperativas de saúde fica cada vez menos acessível, mesmo em países que utilizam algum sistema universal de saúde.
A morte de crianças pobres se tornou corriqueira e para muitas famílias igualmente pobres, sair vivo de um hospital público é uma arriscada loteria.
A educação não está isenta desses efeitos nefastos. Pois, as escolas públicas, quase sempre são as piores nos quesitos mais importantes, quando são boas, reservam-se aos alunos que provêm das classes mais favorecidas, os filhos das elites. Aos pobres como sempre, sobram de graça, apenas os presídios.
Essa tendência encontra-se de modo mais atroz nos países considerados subdesenvolvidos, para onde nas últimas décadas têm-se deslocado as indústrias, que antes se localizavam no ocidente e aqui surge um dos grandes paradoxos desse consumo desenfreado, que é o seguinte:
O argumento para o deslocamento das indústrias do “primeiro” para o “terceiro” mundo foram a geração de empregos e a possibilidade de capacitação das populações locais, contudo, isso mostrou-se uma falácia, ao se constatar que o trabalho dessas fábricas é extremamente precarizado, os trabalhadores recebem salários miseráveis e por isso são forçados a viver em condições subhumanas. A promessa de um emprego provou ser um engodo para ajustar os lucros dos capitalistas à sua extrema miséria. Como se supõe que eles já estavam mortos sem essa “intervenção”, então na cabeça destes empresários, não havia mal nenhum usá-los por míseros salários para produzir as roupas que eu e você podemos comprar por uma pechincha.
É aqui que a coisa fica nebulosa para alguns de nós, pois é onde o nosso consumo se esbarra com a miséria de uma parcela imensa, mas supostamente insignificante de algum país periférico desconhecido, sem expressão na geopolítica mundial.
O deslocamento das indústrias para países em desenvolvimento com a desculpa de que gerarão empregos e possibilidades de capacitação das populações locais provou-se uma falácia, que na verdade serve para precarizar a indústria em vez de desenvolver tais países e para explorar “legalmente” pessoas que já vivem em condições subhumanas, pois normalmente são países com regulações ambientais extremamente falhas, com governos muito corruptos que fecham os olhos ao despejo de resíduos tóxicos sem nenhum cuidado poluindo lençóis freáticos e rios importantes como acontece, por exemplo, com o rio Ganges.

Por tudo isso, precisamos começar a nos questionar sobre esse consumo irresponsável e nos mobilizarmos para práticas que sejam menos tóxicas não apenas para nós mas para as futuras gerações em todas as partes do globo.


Este texto foi publicado originalmente no Pragmatismo Político: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/03/consumo-de-uns-miseria-de-outros.html

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Por quê trabalhar?


Tenho um amigo que faz muitas viagem para a vida e por isso, surpreende-me frequentemente com novas barbaridades teóricas. Acho que para os que leem esse blog sabem a quem me refiro. Pois então, agora ele voltou a deixar minha ignorância à descoberto, ao dizer-me que as formas instituídas de trabalho, como o emprego, por exemplo, são com certeza uma das maneiras mais perniciosas de exploração e violação dos direitos humanos.
A princípio eu recusei-me a admitir que isso pudesse ser verdade, pois como a maioria das pessoas da minha época, cresci ouvindo constantemente ideias, que faziam o trabalho parecer uma das poucas estéticas de vida aceitável, ao lado de outras balelas estruturantes das nossas realidades ilusórias (casamento, identidades de gênero e sexo, superioridade rácica, classes sociais, doenças mentais, justiça social, etc), que existem sob o véu de verdades universais, aliás, uma pretensão absurda, descabida e totalmente irrefletida.
Deste modo, dizia meu amigo, quase enfurecido:
- Começamos muito cedo a acreditar, que ele dignifica o homem, mas esconderam convenientemente, que os valores que se seguem, hoje em dia, como a competitividade e urgência, obrigam-nos a digladiar constantemente com nossos semelhantes, por uma vaga de emprego, uma promoção, um aumento irrisório no salário, etc., tornando-nos piores que animais selvagens.
Também quiseram que pensássemos, que ele é um direito universal, porém, esqueceram de nos dizer, que sempre existirá, por questões estratégicas do modo de produção capitalista, um exército de reserva de mão-de-obra desempregada, para manter equilibrada a roda da oferta e procura; e pensando agora, talvez esse seja na  verdade o único meio de participação social e política, a que a famigerada classe trabalhadora poderá ter acesso, numa sociedade onde nada mais faz-se por ela, além de esvaziar-lhes sua força de trabalho, ou expropriar sua autonomia de formas vergonhosamente degradantes e alienantes, movendo-se na contra-corrente de um presunçoso projeto de autorrealização e autoprodução de sujeitos, que ironicamente sustenta-se, ser apenas possível pelo trabalho. E para não contestá-lo com o argumento de que com o trabalho, pelo menos obtêm-se condições para comprarem o que precisam, meu amigo, fez-me ver com sua arrogância argumentativa, que na verdade, o que acontecia era ainda mais degradante, por que ao contrário do que se pensa comumente, com a lógica atual do trabalho formavam-se consumidores e não trabalhadores. O trabalho transformou-se em produtor de demandas consumista de tal forma que hoje trabalhamos essencialmente para consumir, pois essa é a atitude que sustenta o modo de produção capitalista. E assim, capitalizou-se tudo à nossa volta: nossos afetos, prazeres, ambições, lazer, em suma, nossa subjetividade e quem tenta produzir um modo diferente de existência é logo posto à parte.