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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Para que servem os momentos constrangedores

Estava a pensar na importância dos momentos constrangedores, para que servem aquelas situações em que temos vontade de nos enterrar de tanta vergonha. Sem dúvida que é bem melhor quando se passam com outras pessoas. Como naquela palestra em que minha amiga, armada em sabichona, decidiu corrigir o palestrante, que tinha usado curricula como plural de curriculum, a fulana não resistiu, quiz aproveitar a oportunidade para mostrar que era tão inteligente quanto aquele professor com títulos que quase faziam a calvice parecer algo menos importante. Ele, com aquela solicitude de gente que sabe exatamente o que faz, deu um sorriso antes de explicar com uma simplicidade humilhante como todas as palavras que terminavam daquela forma no plural não usavam o ‘S’, era o caso de curricula em vez de currículos, fora em vez de fóruns e várias outras. Sem dúvida não houve na sala quem não pensasse silenciosamente: ainda bem que mantive a minha boca calada, ou que ser ignorante pode ajudar a evitar situações potencialmente embaraçosas. Porém, engana-se quem pensa que é sempre assim,  já passei vergonha por não  saber o que escolher no cardápio, decidi pelo comum arroz com feijão – claro que não foi nada dignificante ouvir o garçon dizer com uma educação quase doentia: - Não servimos este prato por aqui! Quando voltei ao restaurante com vontade de impressionar uma certa menina, o mesmo garçon lá estava de novo e com aquele sorriso de quem não ia perder a oportunidade de dar uma boa gargalhada às minhas custas chegou devagarzinho e disse quase sussurrando: - Já temos arroz, apenas não temos o feijão! Nessa altura aprendi que não se deve voltar para o lugar do acontecimento constrangedor senão depois de passar um tempo razoável, de preferência depois que até mesmo você já se tenha esquecido do ocorrido, para evitar aquela neurose que te levará de volta ao dia vergonhoso. É bom quando essas coisas acontecem sem que ninguém nos tenha visto, é quase uma benção; e se tiver alguém por perto, de preferência que seja um desconhecido, porque senão aqueles olhos de pena que te acompanharam no dia ‘D’, não vão parar de te assombrar. Mas tenho tido umas boas lições de tudo isso, com a minha minha amiga, por exemplo, descobri que zangar-se com as pessoas que presenciaram a cena, não vai resolver, normalmente tende a agravar a situação, por isso o melhor mesmo é rires de ti mesmo. Ser sua própria plateia e te divertires com as tuas próprias imperfeições.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Humildade hipócrita

Essa coisa de dizer, “tenho orgulho em ser pobre”, me parece mais uma dessas demagogias impostas para fazer com que alguns grupos de pessoas não se sintam tão mal. Simples eufemismos ilusórios, afinal, ninguém deseja manter-se assim a vida toda, e se fosse realmente algo de que as pessoas poderiam gabar-se não veríamos ninguém empenhado em “mudar de vida” , pois é um orgulho viver em lugares que parecem centros de emprego ratatoille, tendo a leptoaspirose por vizinha, ou viver com muito menos que uma refeição por dia e nem se preocupar em filosofar sobre o quanto isso é improvável, não saber o que é água potável e achar que aquele frango cheio de toxinas é realmente um manjar dos deuses, pensar que guardanapo é um prato servido em restaurantes extremamente finos e frango Francês, vinho francês, arroz francês e salada francesa são realmente pratos franceses. Viver apenas para trabalhar e pagar contas, pagar mais contas, e trabalhar como se a abolição da escravatura fosse apenas um projeto de lei. Chegar ao final do salário muito antes do final do mês e ainda convencer-se que existem pessoas em situação pior, como se isso fosse fazer alguma diferença. Viver de um otimismo quase utópico, principalmente no fim de semana, quando se fazem as visitas costumeiras ao shopping apenas para engordar os olhos. Ser visitado por discursos paternalistas cheios de promessas que não têm que se cumprir, ou pelas falas sinicamente moralizadoras de celebridades que se acham um exemplo de superação e desfilam uma humildade hipócrita sobre o tempo em que também eram pobres.