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domingo, 19 de abril de 2015

A respeito das portas e cancelas da vida

Reencontrei recentemente um amigo, que já não via há muito tempo e como é costume nestes casos, começamos a rever nossas lembranças sobre o passado, até que ele me disse o seguinte, com aquele ar simultaneamente nostálgico e  desapontado:
- Tenho a impressão de atualmente nos dedicarmos cada vez menos às pessoas. Parece estarmos a esquecer aos poucos, como é importante cultivar as relações, seja com pessoas próximas, ou qualquer que conheçamos  mesmo que apenas superficialmente. Digo isso pensando por exemplo no vigilante/segurança do trabalho, da faculdade, ou dos outros lugares em que circulamos.
Com frequência já não lembramos dele, tão logo atravessamos a cancela, esquecendo-nos que precisamos da sua atenção ao menos duas vezes ao dia;
- À saída e à entrada!
Ele abre-nos as portas, autoriza nossa passagem e neste sentido, representa ainda que apenas metaforicamente os únicos momentos que iniciam e encerram o ciclo principal de nossas quase sempre sôfregas vidas: nascimento e morte.
Quando abrem simpáticos, nos sentimos felizes por termos recebido naquele pequeno aceno de mão, o reconhecimento de nossas curtas existências, não somos mais invisíveis, graças a eles e isto nos anima a pensar que talvez não o sejamos ao mundo, eles são assim, a mão pela qual alguns mundos nos são abertos ou fechados.
Do mesmo modo, outras pessoas abrem e fecham portas e janelas para nós ao longo da vida, como os enquadramos ou o quanto nos esforçamos por reconhecer sua artífice contribuição, é uma coisa sobre a qual deveríamos pensar vez por outra, pois à medida que crescemos cruzamos por acaso ou propositadamente com outros destes porteiros da vida (irmãs e irmãos, amigas e amigos, companheiros, compadres, primas e primos, namoradas e namorados entre outros), todos a seu modo ajudando a abrir e a fechar infinitas passagens, algumas com maiores dificuldade do que outras, até à altura em que começamos a perceber, que mais importante do que o abre/fecha, são na verdade o caminho e a companhia, que logo nos fazem esquecer como foi doloroso abrir aquela última porta, para nos fixarmos apenas não sensação prazerosa de  fechá-la agora.
Assim, amadurecemos e supostamente passamos a ter uma preocupação maior com nossos parceiros de caminhada, desejando mais a companhia daqueles que andam do nosso lado e nos tratam como iguais e evitando os que sinalizam já desde o início uma obsessão doentia por se colocar sempre à nossa frente, para chamar à si o protagonismo de tão tortuosa jornada, ou porque não é capaz de entender o sentido de se andar de mãos dadas. Afastamos também daqueles que se colocam sempre atrás, evitando responsabilidades maiores, deixando para nós a tarefa ingrata e solitária de desbravar o caminho por ele, oferecendo-lhe respostas à medida que nos segue o rasto de forma covarde.
Enfim, continuamos a caminhar e enquanto tiramos a valiosa lição de que essa andança afinal sempre vai requerer algum tipo de negociação se quisermos companhia e algumas concessões para garantirmos benefícios mais ou menos proporcionais, descobrimos quase por acidente, que pode ser também um processo longo, o que nos obriga a sermos criativos quanto ao que fazer com as pedras que surgem pelo caminho.

Dependendo do otimismo, talvez as usemos para nos divertir, quebrando algumas janelas pelo caminho e neste caso, fazê-lo com alguém, mesmo que isso implique algum tipo de sacrifício, pode ao menos nos garantir boas lembranças para usar como combustível na próxima jornada!

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vida e outras ditaduras

Meu compadre de ideias constrangedoras reapareceu, depois de um longo período de ausência. Ele sempre surge como se tivesse a função de me beliscar com questões provocantes, desta vez chegou bufando palavras escarnecedoras sobre ditaduras e como estava num daqueles dias em que se sentia inspirado a falar de maneira metafórica foi teorizando com um à-vontade quase caricatural, fazendo gestos enérgicos para dar ênfase à sua fala.
- Vou falar sobre algumas ditaduras da vida, melhor, vou falar sobre o sono. Por que ditaduras são como o sono! Disse de maneira grave.
Como já me acostumei às suas excentricidades explicativas, nem fiz menção de questioná-lo, preferi em vez disso apenas ouvi-lo, com a esperança de que no final conseguisse ao menos melhorar meu humor, que escondia minhas várias revoltas com o aumento desenfreado do custo de vida absolutamente desproporcional aos salários dos trabalhadores, obrigados a viverem de empréstimos com juros desnecessariamente abusivos e desonestos, a exploração desenfreada da força de trabalho sem compensação justa, a exposição das nossas crianças à cenas cotidianas de uma violência gratuita e injustificada vinda precisamente de quem deveria oportunizar espaços mais participativos e menos excludentes, o autoritarismo constitutivo da maioria das instituições públicas e várias outras atrocidades sociais, políticas e econômicas.
                Meu amigo começou dizendo que o sono é um pequeno e inoportuno ditador. Por exemplo, disse tentando ilustrar com exemplos seu ponto de vista.
- Imagina-te numa reunião ouvindo corajosamente aquelas informações sempre excessivas de um chefe que não tem noção do quão irritante é a gravidade teatral usada para apresentar assuntos que se confundem entre o que é urgente e o que é importante e enquanto você é obrigado a suportar toda aquela falácia, aparece uma vontade inadvertida de dormir. O sono entra assim sem pedir licença, sem mandato, nem qualquer autorização legal, sem ouvir sequer tuas reivindicações sobre querer se manter acordado só para garantir aquele contingente básico de hipocrisia exigida pelas convenções sociais. De vez em quando você toma uma pilulazinha, que pode até ajudar a resistir por mais um pouco àquela ditadura inconsequente ao custo da perda da possibilidade de experimentarmos certos exercícios de autodeterminação e singularização, porém, em momento algum esse tirano nos deixa esquecer que tal relação está longe de ser democrática, participativa e/ou minimamente honesta. Não há consulta da nossa vontade, aliás, não há sequer o reconhecimento dela, por conseguinte, qualquer ato de reflexão e crítica é automaticamente criminalizado e o infrator, penalizado com longas horas de insônia a que claro seguem-se outras consequências e torturas que impressionam pelo seu conteúdo de sevícia.

Não há vontade ou desejo que se insurja sem sofrer consequências de tal maneira que com o tempo se vá construindo a ilusão de invencibilidade. Aos poucos nos convencemos de que resistir é impossível e comprovadamente ineficaz. Submetemos-nos aceitando pacificamente a situação e acreditando ser essa passividade um ato de inteligência, mas nosso olhar displicente e acusatório nos lembra constantemente de nossa falta de coragem e de como nos deixamos vencer por esse déspota, que impinge continuamente a nós e a outros seu reino de terror, pois ainda lhe resta a certeza de que aquela chama que nos convocava a resistir, se extinguiu por que aquela nossa rebeldia, que a animava, se corrompeu ou envelheceu junto com nossas utopias e vontade de mudança.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As dicotomias da vida

Percebi recentemente, que uma das fórmulas mais antigas para se estabelecer diferenças entre os homens é dicotomizando. O processo é simples: o outro é sempre diferente e de preferência o menos interessante, o extremo oposto, por exemplo, se alguém for alto, bonito e inteligente, precisamos desesperadamente que o outro seja mais baixo, mais assustador e de preferência o mais ignorante possível, um kinder ovo de burrice. Fazer isso pode parecer inofensivo, principalmente se pensarmos que na maior parte das vezes bestializamos esses outros para tornar mais fácil assimilar as caricaturas que fazemos de forma paternalista sobre eles, porém nada está tão longe da realidade e saberíamos disso se não nos deixássemos impulsionar de forma incompreensível pela vontade de nos colocarmos sempre acima dos outros. Pensemos nos exemplos do gordo, do feio e do estúpido, em que deixamos de parte por conveniência nossa sensibilidade para tratar de forma quase animal, aqueles que por algum capricho da natureza foram obrigados a desenvolver um medo patológico do espelho, da balança ou de si próprio. Aliás, já nos acostumamos a dizer e ouvir essas coisas, sem nenhum peso de consciência, ou compaixão. Claro que em casos como os de que falei atrás tentamos sempre nos posicionar do lado positivo deste esquema dicotômico, afinal, quantas vezes não nos deleitamos com a descoberta de um fulano que reinventa sua estupidez de formas mais criativas do que nós? Portanto, não há como negar que todos, de alguma forma, já fomos beneficiados por esse famigerado modo de funcionamento do mundo; e sem pensar nas consequências, adotamo-lo com uma passividade irrefletida, sem nos preocuparmos com o fato de que é dessa forma que se criam extremismos mais perigosos como: cristãos versus muçulmanos, primeiro versus terceiro mundo, ricos versus pobres, civilizados versus matumbos; e vários outros, que provocam ódios homicidas e genocídios aparentemente inevitáveis. Por isso, talvez seja altura de começarmos a pensar em termos diferentes, quem sabe esse não é apenas um dos pequenos passos de que precisamos para tornar nosso planeta um lugar melhor?