segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Disciplina do consumo, ou consumo que nos disciplina?


O consumismo parece estar a constituir-se atualmente, como um dos maiores males da nossa sociedade, rivalizando com problemas como: superpopulação, desemprego, pobreza extrema, guerras mundiais e toda a sorte de questões, que garantem sempre uma venda lucrativa para a pomposa “grande mídia”.

Pois bem, ele parece ser agora, um mal crônico entre nós, já que a impossibilidade de consumir as porcarias vendidas como produtos essenciais para nossa ridícula existência é quase sempre vivida com um grande mal-estar, mesmo sendo coisas totalmente dispensáveis. Não se trata mais de procurar alguém para amar e partilhar o pouco de romantismo, que nossa sociedade cronicamente materialista ainda nos deixa experimentar, nem de buscar o companheirismo desinteressado e altamente desvalorizado de velhos e novos amigos, ou muito menos o afeto convenientemente tradicional de pais e filhos, enfim, qualquer coisa que tenha a aparência de gratuitidade. Muito pelo contrário, trata-se de potencializar uma vida rica em estímulos, mas infelizmente, sem profundidade alguma.

Tira-se-nos aos poucos a sensibilidade, esvaziando-nos por dentro, dessensibilizando-nos, transformando todos em corpos inertes, incapazes de experimentar verdadeiras emoções, substituindo nossa antiga capacidade de nos injuriarmos com o supérfluo, por quaisquer impressões superficiais, desprovidas de alguma excitação. Fazendo com que palavras como tesão e adrenalina, percam todo seu sentido, dando lugar a apatia, ao embotamento das emoções e à diluição da vontade de viver, que via-se manifestada na conhecida rebeldia incompreendida dos adolescentes, na marginalidade perigosa dos reacionários e nos posicionamentos necessariamente polêmicos, virulentos e radicalistas dos movimentos sociais. É isso, deixamos impavidamente, que este vírus reduza-nos cada vez mais a autômatos reprodutores de códigos vazios e sem sentido, sobrando apenas uma vida totalmente disciplinada e nada imaginativa.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tarja Preta - Beleza que se põe à mesa

"Pessoal, normalmente eu apenas coloco crônicas minhas aqui no blog, mas não resisti a este texto, eu achei muito interessante e tive que pedir a autora para postá-lo aqui. Eu adorei, espero que vocês também se deleitem com a leitura."

Atenção: Texto contra-indicado para pessoas que sofrem de ignorância aguda.
 Pode causar dano a beleza.

Quanta beleza tem um corpo cheio de saúde!


“Seu rosto é lindo!”

“Se você emagrecesse só um pouquinho, ficaria linda.”

Estes são os piores ‘elogios’ que já ouvi.
Ok, só o rosto... Tirando o ‘resto’ fora do padrão.

E o pior, estes elogios vêem em geral de pessoas próximas, dos amigos, da família.
Visitar os parentes e ouvir: - você parece que engordou mais?!
Xi... É de praxe! É a primeira observação de todos.

Vai a intercâmbio? Vixi... Na Espanha só comem batata, agora é que vai engordar, heim?!
Quando não vêm aquelas piadinhas - dos que se consideram mais íntimos - e, portanto, (erroneamente) mais habilitados ao desrespeito: “Cuidado pra não sair rolando, heim?!” “KKK” – todos riem.

A risada! Aquela que legitima o preconceito.
Tudo fica ameno quando se ri. Todos acompanham... ahh..pois era só uma brincadeira. Por que você tem que levar tudo tão a sério? (Pois, você que não riu, sai como o carrasco da turma).

E aqueles que passam a vida analisando o biotipo dos outros?! O assunto só gira em torno do corpo, das vestimentas.

Sim. Porque gordas, gordinhas, e companhia acima do peso ‘têm’ de usar vestimentas ‘apropriadas’! Em geral são as que tampam o máximo possível. É escandaloso mostrar gorduras.
Top? Shortinho? Sainha? É pras magérrimas mermão, não sabe, não?! Aquele velho jargão: é pra quem pode!

Entendo que no mercado faltam opções, a moda chega ao máximo até o tamanho 42, o que nos sobra são as grandes mangas, roupas escuras pra ‘disfarçar as gordurinhas’ e longas para suavizar e alongar a silhueta. Então temos que viver nos escondendo? Sim. Senão corremos o risco de sermos taxadas de ‘propositalmente escandalosas’. E de fato nos sentimos escandalosas vestindo os manequins PP. Isso é muita hipocrisia! Como se todas tivéssemos aquelas costelas a menos das barbies que ditam moda.

E aquele momento em que você está num lance com um garoto e ele solta:
“Você é gordinha, mas tem outras coisas que compensam: a pele macia, por exemplo.”
Os ‘apesar de’, seguido das ‘compensações’. Que preconceito não conhece isso?

Você adora um balanço ao som do forrozinho? Então não podem faltar aqueles comentários: “Sabe, admiro que você não se intimide, coloca calça que marca e sai para dançar, ou aquelas comparações: “Como você consegue fazer esse passo com ela que é mais pesada que eu, e não consegue fazer comigo?”
Poderia ser tantas respostas para essa pergunta. O fato de ser leve para dançar e me deixar conduzir? (Um dos quesitos para uma boa dança). Ou o fato de praticar mais a dança? (Inclusive por ser namorada do professor).

Mas não. Apesar de sermos da academia e, teoricamente, procurarmos várias respostas para os fatores humanos, não fazemos isso no cotidiano. Saindo das dissertações e teses somos grandes superficiais. Seguimos a logiquinha de X=Y, ou 1+1=2. No sentido em que existe apenas uma resposta para uma pergunta – ainda que se trate de humanidades. Quanta leiguisse para pouco acadêmico!

E quanto machismo! Sim, ao olharmos para o corpo do outro e legitimarmos um `ideal` estamos novamente reproduzindo o discurso que tanto criticamos. Onde está nosso feminismo tão aclamado? O `corpo livre`, o `corpo laico` das bandeiras que erguemos nessa onda de protestos? Ficaram para os facebook`s?!

Não. Apesar das frases retiradas do cotidiano e transcritas acima, eu não me considero gorda (não seria problema nenhum ser), mas digo por questões quantitativas, estou com alguns quilos acima do peso considerado ‘ideal’. E que ideal é esse?
Vende - se Ideais.
(Nota de rodapé) - Reações adversas: Se utilizado em altas doses esse produto pode causar infelicidade.

Ideal que a mídia vende.
E nós compramos.
Juntamente com os inibidores de apetite, as loucas dietas, o mau humor que isso nos gera, as vontades sendo repreendidas, a infelicidade - tudo em troca de um ideal injetado.
Que masoquismo é esse?

Esse corpo, ideal de beleza considerado ‘normal’, corresponde à famigerada curva de normalidade.

Outro conceito que se tornou mais uma daquelas regras ‘simples’.
Há uma curva de normalidade. Os que se enquadram nela pelo índice de IMC (Índice de Massa Corporal) são os ‘normais’. Aqueles que apresentam um peso superior à sua massa corpórea indicada como ‘normal/esperada’ são os ‘acima do peso’, os ‘gordinhos’ e aqueles que apresentam massa corpórea inferior estão abaixo do esperado, os extremamente magros.

O interessante é que os ‘desinformados de plantão’, sempre aparecem com a maior preocupação. Não, não é questão de beleza que tem de estar entre os ‘normais’, é pela saúde.

Noto que nesse caso, as pessoas consideradas ‘abaixo do peso’ (aqui não incluo as que apresentam distúrbios alimentares) não são tão cobradas para ‘ter saúde’ como as ‘gordinhas’. Será que é porque estas abaixo do IMC se assemelham às tão saudáveis top models?!
- Ah não Naeli. Não pode ser porque essas beldades são consideradas de corpinho ‘padrão’!

Porque ter saúde significa ser magro. Não importa as atividades do seu dia a dia, não importa a caminhada, a dança ou o fato de pedalar todos os dias. A interpretação é simples: se é gordo = é sedentário = não é saudável = não tem saúde. Isso pode ser observado em uma das perguntas que um entrevistador fez à modelo Plus Size – Fluvia Lacerda - (Assista em: http://www.youtube.com/watch?v=lfPGY_EL8ws. Minuto 3:18).

Afinal, o que é saúde? Quem é saudável?
Aquele que vai à academia religiosamente todos os dias e não dorme sem o ‘bom e velho’ calmante?

Ou aquele que faz yoga, é vegetariano, não toma refrigerante por 10 anos, mas não consegue habitar ambientes em que os objetos não estejam milimetricamente organizados?
                                                                                  Naeli Simoni de Castro


segunda-feira, 10 de junho de 2013

E se meu prato de arroz fizesse política?

Há alguns dias, estava a passear pelo campus da minha faculdade, quando encontrei um grupo de alunos entusiasmados, envolvidos em uma discussão que parecia valer a pena ouvir; e como eu sempre me interessei pelos assuntos alheios, aproximei meus ouvidos (curiosos) justamente no momento em que um deles proferia a teoria de que nosso estômago é um instrumento político, que o arroz com feijão, a feijoada, o pirão com peixe seco, ou quaisquer outras comidas que nos acompanham teimosamente,  em nosso dia-a-dia, são grandes mediadoras das relações sociais.
Franzi o sobrolho, tentando propositadamente deixar transparecer meu descrédito e talvez até minha convicção de que ele estava cada vez mais próximo de um episódio de loucura, porém, ele apressou-se em acabar com o meu resistente cepticismo e o ponto de interrogação que ameaçava surgir no meu rosto, arranjando uma maneira de integrar um argumento que parecesse convincente:
 - Vocês lembram-se do dito popular “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és!”, pois bem, eu sempre achei uma boa ideia essa frase e confesso que muitas vezes usei-a sem pensar muito além de seu sentido superficial e tendenciosamente discriminatório, contudo, recentemente descobri, que um cara chamado Brillat-Savarin, modificou-a para: “diz-me o que comes e te direi de onde vens”. Pus-me a pensar, tentando vislumbrar um sentido mais profundo e crítico para a frase, de modos que passei a procurar outras referências para refletir a respeito da mesma; e quando então, minha curiosidade começou a ser satisfeita, passei a achar, que jamais comeria um prato de carne da mesma maneira, pois percebi, que até nisso havia uma proposição política. Que o que eu comia indicava um status e o que escolhia no menu, gritava alto meu poder aquisitivo.
Meu arroz com feijão era no fundo muito mais do que um monte de calorias inertes; era também e antes de tudo uma condição social, um modo de demarcação de território, uma identidade cultural, de classe, sexo, raça, nacionalidade, religião e uma contratação de relacionamentos interpessoais, etc., que alimentam nosso imaginário quotidiano. Através da comida dividimos ricos de pobres, sofisticação de simplicidade e ainda estabelecemos regras de transitoriedade nos e pelos espaços público e privado.
Também compreendi que, se a “comida de mãe” distingue-se da “comida de restaurante”, é muito mais pela familiaridade do ambiente em que ela era apreciada, do que verdadeiramente pela sua qualidade.
Tudo isso serviu ao menos para entender pequenas coisas e responder a perguntas que eu abafava devido à culpa religiosa que não me deixava questionar por quê as melhores partes do frango iam sempre para o meu pai, que injustamente já comia ovos com batata frita ao café da manhã, enquanto nós tínhamos que nos contentar em engordar o pão com manteiga, acompanhado de um dietético chá de camomila; e agora, finalmente ficou clara para mim, a razão pela qual meus coleguinhas do primário, teimavam em separar-se em grupo dos que traziam o lanche de casa e dos que o compravam na cantina.
Claro que eu não concordei com a teoria do rapaz e depois, não podia suportar que meu café da manhã discordasse dos discursos esquerdistas, que eu defendia nos debates de que participava. Mas por via das dúvidas, faria algumas reformas na minha dispensa!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sobre a greve de estudantes na Unesp-Assis


A revolução começa em nossas consciências!
Esta é a frase que tenho sentido pairar na Faculdade de Ciências e Letras de Assis, desde o dia em que o “sim à greve!” tornou-se o grito de guerra adotado pelos alunos, que se no início deixavam brechas para serem atacados devido à falta de assertividade das pautas propostas e outras fragilidades, puderam mostrar com o passar dos dias, ao que vieram, ou seja, fazer legítimas suas reivindicações.
A “causa” foi assim crescendo, com um nível de organização que  transformou, gritos inócuos em vozeirões cada vez mais audíveis e assustadoramente mais coerentes; donos de uma personalidade pouco vista nos momentos atuais, onde enfraquecem à olhos vistos várias das antes fortes propostas de reivindicação de direitos sociais e políticos.
O movimento abandonou  a blogosfera, transcendeu o facebook e foi às ruas, tratando de ocupar os espaços físicos do campus e melhor ainda, ocupando as cabeças dos alunos, obliteradas por medos compreensíveis da autocracia de alguns docentes e mostrou algo, que há muito parecia perdido: solidariedade. Os estudantes do campus de Assis uniram-se, com suas reivindicações mais do que justas e a seguir, galoparam ao encontro dos confrades de outros campi da Unesp. Logo, logo, mostraram ao Estado e com um pouco de sorte, ao mundo, que não estão adormecidos para as injustiças sociais, que a implicação e a resistência não foram totalmente perdidas e ainda há, por isso, motivos para acreditar na esperança como uma virtude sobre a qual vale a pena construir utopias com potencial inimaginável para se tornarem causas que justifiquem a ocupação de todas as faculdades do país e do mundo, ou para reivindicar o lugar social e político que nos está sendo sistematicamente retirado.
Outro aspecto interessante, foram os brados que se recusaram a calar e falaram tanto contra como a favor. Infelizmente,  muitas vezes as vozes contrárias foram recebidas com animosidade, paradoxalmente, ainda conseguiu-se garantir um exercício doloroso, mas sério de democracia. Todos, na medida do possível, puderam participar e opinar; e mesmo que várias críticas ainda possam ser costuradas, imagino que não seria leviano afirmar ter havido votações o mais justas possíveis.
Se essa não for uma lição de democraticidade experimentada pelos alunos, que se possa legitimá-la ao menos, como uma experiência sui-gênere, afinal, foi uma interessante demonstração de responsabilidade e se não; por tudo o resto, acho que os alunos merecem o devido reconhecimento e respeito.
Sem cair no erro de parecer um glorificador ingênuo da causa, gostaria também de participar, como posso, para dizer que as revoluções não se sustentam por elas mesmas e por isso, uma logística de alternativas deve também fazer parte do processo, propiciando ao contrário de uma radicalização desnecessária de frentes, uma oportunidade de reflexão que leve como consequência à mudança de cenários, sempre que se mostre estrategicamente necessário.
Por fim, desejo, que esta seja (tal como suponho que espera a maioria), uma verdadeira revolução dos modos de pensar nossas realidades sociais, econômicas, políticas e históricas, que transcenda a satisfação de desejos e vaidades individuais.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Por quê trabalhar?


Tenho um amigo que faz muitas viagem para a vida e por isso, surpreende-me frequentemente com novas barbaridades teóricas. Acho que para os que leem esse blog sabem a quem me refiro. Pois então, agora ele voltou a deixar minha ignorância à descoberto, ao dizer-me que as formas instituídas de trabalho, como o emprego, por exemplo, são com certeza uma das maneiras mais perniciosas de exploração e violação dos direitos humanos.
A princípio eu recusei-me a admitir que isso pudesse ser verdade, pois como a maioria das pessoas da minha época, cresci ouvindo constantemente ideias, que faziam o trabalho parecer uma das poucas estéticas de vida aceitável, ao lado de outras balelas estruturantes das nossas realidades ilusórias (casamento, identidades de gênero e sexo, superioridade rácica, classes sociais, doenças mentais, justiça social, etc), que existem sob o véu de verdades universais, aliás, uma pretensão absurda, descabida e totalmente irrefletida.
Deste modo, dizia meu amigo, quase enfurecido:
- Começamos muito cedo a acreditar, que ele dignifica o homem, mas esconderam convenientemente, que os valores que se seguem, hoje em dia, como a competitividade e urgência, obrigam-nos a digladiar constantemente com nossos semelhantes, por uma vaga de emprego, uma promoção, um aumento irrisório no salário, etc., tornando-nos piores que animais selvagens.
Também quiseram que pensássemos, que ele é um direito universal, porém, esqueceram de nos dizer, que sempre existirá, por questões estratégicas do modo de produção capitalista, um exército de reserva de mão-de-obra desempregada, para manter equilibrada a roda da oferta e procura; e pensando agora, talvez esse seja na  verdade o único meio de participação social e política, a que a famigerada classe trabalhadora poderá ter acesso, numa sociedade onde nada mais faz-se por ela, além de esvaziar-lhes sua força de trabalho, ou expropriar sua autonomia de formas vergonhosamente degradantes e alienantes, movendo-se na contra-corrente de um presunçoso projeto de autorrealização e autoprodução de sujeitos, que ironicamente sustenta-se, ser apenas possível pelo trabalho. E para não contestá-lo com o argumento de que com o trabalho, pelo menos obtêm-se condições para comprarem o que precisam, meu amigo, fez-me ver com sua arrogância argumentativa, que na verdade, o que acontecia era ainda mais degradante, por que ao contrário do que se pensa comumente, com a lógica atual do trabalho formavam-se consumidores e não trabalhadores. O trabalho transformou-se em produtor de demandas consumista de tal forma que hoje trabalhamos essencialmente para consumir, pois essa é a atitude que sustenta o modo de produção capitalista. E assim, capitalizou-se tudo à nossa volta: nossos afetos, prazeres, ambições, lazer, em suma, nossa subjetividade e quem tenta produzir um modo diferente de existência é logo posto à parte.