sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Meu amigo gordo

Eu tenho, um amigo gordo, que circula de dieta em dieta, tentando chegar ao corpo iedial. Eu acho que gostaria de dizer-lhe que não existe tal coisa, que é pura ilusão criada por propagandas enganosas, mas ele não acreditaria  em mim, pois tenho o corpo que ele gostaria, então,  quando ele está triste e deprimido por não conseguir subir cinco degraus sem que seu corpo pareça estar a entrar em colapso, eu me sento ao seu lado, solidariamente, fingindo hipocritamente uma dor qualquer, sem peso de consciência, tal como acontece em muitas outras circunstâncias em que essa  falsidade  nos coloca  à salvo da nossa covardia, sorrindo quando queremos chorar, abraçando quando temos uma grande vontade de esganar, ou escondendo os nossos desejos sexuais com cantadas superficiais ou mais triste ainda, aplaudindo discursos xenôfobos  e facistas, justificando essa atitude com um falso racionalismo e desculpas que jamais admitiaríamos de outros. Infelizmente, meu país tambpém está povoado de pessoas parecidas ao meu amigo, que precisam dessa charlatanice para continuarem a viver confortavelmente a sua mórbida ignorância satisfazendo-se com uma palmadinha solidária de vez em quando e deixando-se enganar pela aparente tranquilidade da situação. E como não podia deixar de ser, também tem outros parecidos à mim, com meu senso de humanidade decadente que pensam (se é que realmente são capazes disso) que sua “humilde” hipocrisia é uma questão de bom senso.

sábado, 27 de agosto de 2011

Narcisistas apaixonados

Há alguns dias estava a pensar naqueles momentos em que se vive que nem um vegetal, sem sair do sofá, sozinho, alimentando-se de objetivos quase inalcansáveis de sonhos que dificilmente se materializarão e de programas que praticamente vendem-se ao diabo por audiência, em que fala-se sobre tudo o que não é importante, ou é considerado fútil pelas mesmas pessoas que assistem apenas para levantar sua auto-estima, já que com personagens bizarras tentam convencer a audiência que sua auto-estima é o seu maior património. De tanto assistir a estes programas  já me convenci que preciso ser sempre o mais bonito, o mais inteligente, o mais capaz, o mais etc., já que ser menos alguma coisa pode ser um quadro grave de baixa auto-estima. Felizmente, já existe cura e para os casos crônicos, até um tratamento, que “apenas” exige que compremos o nosso bem estar de todas as maneiras possíveis. – Gastando aquelas horas ociosas nos fantasiando de príncipes e princesas, ou barbies em tamanho natural, tentando garantir a auto-estima com esquemas de beleza que não duram mais do que 15 minutos, ou escondendo nosso medo de paracer ignorantes com discursos ensaiados e títulos desnecessários, que apenas nos tornam especialistas nas coisas que não nos fazem a menor falta; e quando isso não bastar, sempre nos sobram os programas de domingo à tarde que parecem livros de auto-ajuda já que nos deixam cada vez mais apaixonados por nós mesmos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Para que servem os momentos constrangedores

Estava a pensar na importância dos momentos constrangedores, para que servem aquelas situações em que temos vontade de nos enterrar de tanta vergonha. Sem dúvida que é bem melhor quando se passam com outras pessoas. Como naquela palestra em que minha amiga, armada em sabichona, decidiu corrigir o palestrante, que tinha usado curricula como plural de curriculum, a fulana não resistiu, quiz aproveitar a oportunidade para mostrar que era tão inteligente quanto aquele professor com títulos que quase faziam a calvice parecer algo menos importante. Ele, com aquela solicitude de gente que sabe exatamente o que faz, deu um sorriso antes de explicar com uma simplicidade humilhante como todas as palavras que terminavam daquela forma no plural não usavam o ‘S’, era o caso de curricula em vez de currículos, fora em vez de fóruns e várias outras. Sem dúvida não houve na sala quem não pensasse silenciosamente: ainda bem que mantive a minha boca calada, ou que ser ignorante pode ajudar a evitar situações potencialmente embaraçosas. Porém, engana-se quem pensa que é sempre assim,  já passei vergonha por não  saber o que escolher no cardápio, decidi pelo comum arroz com feijão – claro que não foi nada dignificante ouvir o garçon dizer com uma educação quase doentia: - Não servimos este prato por aqui! Quando voltei ao restaurante com vontade de impressionar uma certa menina, o mesmo garçon lá estava de novo e com aquele sorriso de quem não ia perder a oportunidade de dar uma boa gargalhada às minhas custas chegou devagarzinho e disse quase sussurrando: - Já temos arroz, apenas não temos o feijão! Nessa altura aprendi que não se deve voltar para o lugar do acontecimento constrangedor senão depois de passar um tempo razoável, de preferência depois que até mesmo você já se tenha esquecido do ocorrido, para evitar aquela neurose que te levará de volta ao dia vergonhoso. É bom quando essas coisas acontecem sem que ninguém nos tenha visto, é quase uma benção; e se tiver alguém por perto, de preferência que seja um desconhecido, porque senão aqueles olhos de pena que te acompanharam no dia ‘D’, não vão parar de te assombrar. Mas tenho tido umas boas lições de tudo isso, com a minha minha amiga, por exemplo, descobri que zangar-se com as pessoas que presenciaram a cena, não vai resolver, normalmente tende a agravar a situação, por isso o melhor mesmo é rires de ti mesmo. Ser sua própria plateia e te divertires com as tuas próprias imperfeições.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Por que odeio aniversários

Nada mais nostálgico do que um aniversário depois dos 20 anos. Você volta ao tempo de criança, quando quase parece que o aniversário nem é seu. Alguém trata de organizar tudo por ti (mas não necessariamente pra ti) levando uma série de coisas que você nem sabe para que servem. A casa se enche de crianças que não conheces. Filhos de colegas e amigos, dos teus pais e enquanto todos vocês são obrigados a contentar-se com doces e salgados bem racionados na varanda, ou em qualquer lugar que não tenha nada para quebrar, os adultos se esbaldam na sala ao lado, aproveitando muito mais a festa do que dono dela, e na hora do bolo, além de seres obrigado a dividi-lo é sempre um adulto quem define o tamanho.
Todas essas recordações fazem te contorceres na cadeira, enquanto festejas com os teus amigos os teus vinte e tal, inflamado com discursos de falso orgulho por te sentires mais maduro agora que tens que trabalhar para sustentar a ti e à tua magnífica família, isso momentos antes de um dos teus amigos fazer aquela piadinha sadicamente sarcástica sobre a idade, ou uma das tuas amigas disparar maliciosamente que para pessoas “maduras” como nós, já não sobra espaço para erros, porque já não somos jovens e irresponsáveis como nos tempos de faculdade e para rematar, como se tivessem combinado fazer te sentires mal, outro, irritantemente mais jovem dá-te aquela palmadinha nas costas enquanto sussurra maliciosamente ao teu ouvido: - juventude é uma questão de espírito, como se você ainda fosse aquele adolescente ingênuo que apenas deseja para o aniversário: uma namorada ou a oportunidade de ir às matinês dançantes e perder-se na sensualidade que acabou de descobrir nas mulheres.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Minha modesta honestidade

Às vezes acordamos com a idéia de que somos  melhores que todos os outros que conhecemos – mais inteligentes e generosos, mais solidários e honestos, etc., o que nem é errado, afinal faz parte da nossa vaidade narcísica e desde que não contemos à ninguém que pensamos tudo isso, não precisámos de nos preocupar. O importante mesmo é manter em segredo esse orgulho que apesar de muito saudável pode ser mal interpretado fazendo-nos parecer arrogantes ou porcos chauvinistas se formos homens. Por isso, quando essa convicção se torna forte demais, decidimos fazer alguma coisa para provar como somos tão bons camaradas, como nos preocupamos com o resto do mundo. Então começamos por aqueles gestos que na maioria das vezes não fazem a menor diferença como apagar o cigarro antes de jogá-lo ao chão, esvaziar completamente a lata de refrigerante antes de tentar um arremesso falho na lata delixo, que até não está tão distante, ou colar o chiclete debaixo do banco para que ninguém pise nele. Nestes momentos nos sentimos orgulhosos porque temos a certeza de estarmos a fazer coisas que não dependem apenas do bom senso mas que se devem principalmente a nossa magnífica mente intelectual e consciência de que é com gestos insignificantes que evitamos grandes catástrofes como o aquecimento global, degelo dos glaciares, fome mundial, etc, mesmo sem saber exactamente como é que isso acontece, até porque os órgãos de comunicação não param de falar desses heróis invisíveis de que o mundo precisa, que participa de lutas políticas e se diz neutro, grita palavras de ordem que nem ele mesmo entende, na maioria das vezes e sobre as quais não se perguntou o essencial.