A campanha iniciada recentemente como resultado de articulação entre UNICEF e Ministério da Justiça, sobre paternidade responsável é uma iniciativa interessante, pois torna pública a discussão sobre o lugar da paternidade, infelizmente ainda padece de um problema de estreitamento de responsabilidades, ao apresentar como exemplo essencial de paternidade responsável apenas o registo, que é na verdade uma fracção do que seria de facto a paternidade responsável.
As três peças que tive a oportunidade de assistir (o polícia, o taxista e o Anselmo Ralph) dão a
impressão de condicionar um direito fundamental da criança (o direito ao
reconhecimento pelo Estado - cidadania) à boa vontade do pai ao deixar de
referir que o registo é um direito e como tal deve ser garantido pelo estado
independente da vontade do pai.
Contudo, para não ser totalmente injusto é verdade que
as imagens apresentadas sugerem outras formas de exercício da paternidade, mas ainda
assim de forma pobre e sem muito aprofundamento.
Para nós homens a tarefa de ser pai sempre foi
facilitada, começando pelo facto de que enquanto para as mulheres o exercício
da maternidade é sempre compulsório, para os homens, a paternidade é sempre
voluntária. Nós podemos escolher ser pais no momento que mais nos convém e isso
diz respeito até a questão básica do registo. Há contudo outras formas de adiar
a paternidade, como quando a mãe é a única que sabe onde estão as roupas da
criança, os cremes que ela deve usar, ou mesmo quando a mãe domina todas as
restrições dos filhos e o pai se contenta em delegar essa tão importante
responsabilidade para a mãe, ou ainda, quando
mesmo coabitando sobre o mesmo tecto o pai limita-se a ser apenas o provedor
financeiro, nunca sabe quais são as manias e virtudes da criança, que ginásticas
se fazem para ela comer, que desenhos animados ela mais gosta de assistir, como
gosta que se amarrem os atadores do sapato, fugindo nos momentos de crises e
birras da criança e só aparecendo quando ela está quieta, limpa e bem
comportada.
O que não significa que o registo não seja importante,
até porque o censo de 2014 do Instituto
Nacional de Estatística apurou que apenas 1 em cada 4 crianças com menos de 5
anos de idade estão registadas.
Mas porquê isso acontece?
Em muitos casos simplesmente porque os pais se recusam
a fazê-lo. Neste sentido, talvez as mães não precisassem de se preocupar com
isso, se o Estado em vez de fazer campanhas simpáticas para os pais, garantisse
que nenhuma criança saísse de uma maternidade sem a sua certidão de nascimento
na mão, isso independentemente da vontade do pai.
Outro aspecto importante a levantar é o facto de que
se por um lado o pai decide adiar o reconhecimento da criança até que ele se
sinta impelido por uma força sobrenatural incerta, a mãe não tem jamais essa
opção, ela tem que arcar muitas vezes sozinha (30% dos chefes de agregados familiares
são mulheres) com o peso que a recusa ou a demora do reconhecimento por parte
do pai implica.
Ainda sobre os limites do registo, vale apontar a que a
ideia simplista de que a paternidade responsável passe principalmente pelo
registo já tem criado situações nas quais esse passa a ser o único papel de um
pai que não se cansa de multiplicar a prole, deixando sem peso de consciência para
as mães a responsabilidade de lidar sozinha com a manutenção dos seus filhos.

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