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terça-feira, 10 de novembro de 2015

A pizza, o green card e os "mal-entendidos": sobre ser latina nos Estados Unidos

Míriam M. C. Garrido, doutorando do curso de História na
Unesp, campus de Assis
Como mulher e brasileira que adora viajar já presenciei muitos tipos de preconceitos e situações constrangedoras. Bom, ok, não vamos “dourar a pílula”, vivenciei em muitas das minhas viagens preconceitos e assédios que me constrangiam e me deixavam impotente diante de um homem que exercia seu poder de opressão por ser homem e autóctone no espaço onde eu era apenas uma turista.
Uma vez fui a Fortaleza com meu irmão mais novo. Toda vez que pedia indicações às pessoas nas ruas as respostas eram direcionadas ao meu irmão (homem) e não a mim que havia feito a pergunta. Ali aprendi que os homens devem nos guiar nas viagens. Ou quando fui a  Lisboa e um senhor simplesmente me agarrou pela cintura e me suspendeu porque havia sorrido para mim e eu retornei o sorriso. Com pedidos agressivos de “onde é seu hotel” aprendi que além de guiada por homens eu também não podia sorrir nas ruas.
Mas agora me vejo numa situação totalmente nova. Estudante de doutorado estou morando nos Estados Unidos, uma vez que, minha pesquisa sobre militância negra brasileira tem revelado afinidades com os movimentos negros estadunidenses das décadas de 1960 e 1970. Aqui aprendi que sou mulher, latina, brasileira e outras coisas de que não me havia apercebido.
O título do texto parece estranho não? Estranho ou não ele ajuda a explicar um dos maiores estranhamentos que tive nas primeiras semanas da minha chegada aos E.U.A. Na primeira casa onde morei conheci um homem americano (40 anos), que sabia da minha condição de estrangeira obviamente. Dizendo-se interessado em me mostrar onde eu poderia comprar comida e outras coisas necessárias à minha adaptação ele se prontificou em levar-me ao mercado mais próximo, e coisas semelhantes.
Ótimo, ajuda sempre é bem vinda e as pessoas que moram a mais tempo em determinadas cidades sempre sabem os melhores lugares e os mais baratos.
No terceiro dia que o rapaz foi a casa (o que no Brasil poderia ser considerado uma república estudantil) ele perguntou se eu tinha fome e que ali próximo havia uma pizzaria. Porquê não? Eu fui... Durante o caminho para atravessar a avenida ele segurou a minha mão (ok, deve ser porque a avenida era movimentada, mas em seguida eu desvencilhei minha mão), depois me disse que era para eu me sentir segura, pois agora tinha alguém para olhar por mim (opa, com 30 anos, divorciada, me sustentando sozinha a mais ou menos 10 anos, nunca precisei de alguém “para olhar por mim”, por que eu precisaria agora?), e a conversa foi ao clímax quando ele sugeriu que talvez eu pudesse ficar definitivamente nos Estados Unidos, pois, ele casaria comigo vialibilizando assim meu pedido do green card.
“Pera”, como assim? Em que momento eu disse àquele homem que eu desejava morar nos Estados Unidos por tempo indeterminado ou me tornar “cidadã americana”? em que momento eu dei a entender que era uma pessoa (mulher) frágil que necessitava de cuidados de outrem? Em que momento eu permiti certas aproximações físicas que ele tentava mais enfaticamente após revelar as verdadeiras razões para a sua “prestatibilidade”?
Agora penso que as indagações que me passaram à mente naquele momento muito se assemelham às vítimas de violências que se sentem culpadas pelas ações do outro... Quantas mulheres saem às ruas todos os dias para trabalhar e estudar e são interrompidas – de inúmeras formas – por homens que acreditam estar exercendo seu direito de dominar uma outra pessoa? Quantas mulheres sofrem violências físicas e psicológicas (na família, na escola, no emprego) todos os dias? E o pior de tudo isso, quantas de nós mulheres não começamos a nos questionar “E se eu tivesse ido por uma rua mais movimentada? E se eu estivesse usando calças? Será que deixei ele pensar que podia fazer isso comigo?”. Não, isso não é justo comigo.
Pelo que depois me explicaram as brasileiras intercambistas, ao encontrá-lo pela terceira vez e aceitar uma pizza eu estava aceitando o “date”, ou seja, estava saindo com aquele homem. Novamente eu me senti impotente na minha condição de mulher e turista, mas agora também brasileira, que aos olhos do estadunidense é a tradução da busca pelo american dream. Só que eu não estava interessada em nada daquilo. Nem ter um “date” nem me tornar cidadã estadunidense. Repito, minha primeira reação foi pensar em que momento eu deixei implícitas essas coisas para aquele homem, mas com o tempo percebi que nada do que eu fiz ou disse indicava nenhum daqueles pré conceitos estabelecidos por aquele indivíduo.
Infelizmente grande parcela dos imigrantes brasileiros ainda vêem o casamento como uma forma de entrar para a sociedade estadunidense e garantir assim maior acesso ao bem estar social, aos bens de consumo e a elevação do status quo. Isso me foi explicitado por várias outras brasileiras em diferentes ocasiões. Mas em que medida essas mulheres também não são vítimas inconscientes de um estereótipo lançados sobre nós mulheres, latinas e brasileiras?
O texto não tem uma conclusão, eu ainda vivo aqui e estou tentando aprender a conviver com a frieza americana e a coisificação do corpo da mulher (latina de uma forma geral), mas com o texto proponho uma reflexão: até quando vamos nos sentir culpadas pelos “santos assédios de cada dia”?

domingo, 8 de novembro de 2015

A objetificação da mulher lésbica

Maria Eugenia, estudante do
curso de Psicologia, Unesp,
campus de Assis
Desde que nos conhecemos por gente, nós mulheres temos nossos corpos, desejos e sexualidades domados e limitados com imposições sociais, deturpadas noções de certo e errado, renegados por preceitos religiosos que muitas vezes nem fazem parte das nossas crenças pessoais.  É nos imposto o exercício da feminilidade, da docilidade, da ternura. Os “modos de menina” sempre faz com que nossa liberdade seja pouco a pouco tolhida, ainda nos verdes anos, diante de orientações daqueles que, teoricamente, só querem o nosso bem.

No início da adolescência, nos vemos diante de mais uma imposição, dessa vez a heterossexualidade compulsória. No entanto, muitas vezes o desejo, esse cujas correntes sociais não são capazes de prender e brota feito um rio que não se pode represar, não corresponde com as expectativas sociais.  Daí então se inicia uma sequência de questões e conflitos, desde a autoafirmação até a objetificação sexual.

Nosso corpo é visto como a serviço do masculino e o mesmo se supõe quanto ao nosso desejo. E quando nele não cabe o prazer do homem, eles o julgam incompleto. Das tantas violências sofridas, a objetificação da mulher lésbica é uma das mais agressivas. Cerceia nossos desejos, nossa expressão de afeto, nosso espaço e nossos direitos.

Nem nosso corpo, nem nosso desejo e nem nossas relações estão a serviço do prazer masculino. É direito da mulher lésbica ter sua relação reconhecida, respeitada e não objetificada em espaço algum. O corpo da mulher é dela e somente de quem ela deseja que seja. Não estamos e nem estaremos a mercê do desejo de quem não nos agrada.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sendo babaca e homem

      Nos últimos tempos tenho ouvido com frequência, ideias que explicam vários problemas sociais como tendo origem no fato de vivermos numa sociedade que produz pessoas problemáticas, como dá para imaginar, neste caso a culpa nunca é do nosso caráter, mas sempre de uma sociedade que educa de modo racista, machista, homofóbico e por aí fora. Assim até fica fácil justificar todos os problemas recorrendo a clichês e argumentos retóricos para arrazoar sobre atitudes totalmente irresponsáveis.
       Nós homens somos especialistas nisso, aproveitamos retóricas machistas e sexistas para argumentar a favor de nossos erros e babaquices, que incontáveis vezes produzem um sofrimento indesculpável às pessoas que dizemos que amamos.
       Assim, a traição nunca é culpa do cara, já que pode ser facilmente explicada pela educação (ou falta dela). Afinal, crescemos aprendendo que ser homem é entre outras coisas:
      
        Fazer alarde das nossas paqueras irresponsáveis, sem questionar se isso não soaria à desrespeito para a parceira, aliás, dane-se ela, porque eu tenho mesmo é de provar ser macho, deixando claro que meu ego precisa deste esforço desonesto para mostrar aos amigos aquela pose de  fodão, fazendo questão de desconsiderar inclusive os compromissos assumidos com minha parceira.
 
       Flertar com outras mulheres sem pensar no mal-estar que isso causará à relação na qual você entrou voluntariamente.
 
     Tornar o conceito de fidelidade, numa definição abstrata e nebulosa, só válida quando você pode se colocar como vítima.
 
      Defender que todas estas ações são nada mais do que “brincadeirinhas inocentes”, sem verdadeiras implicações. Porém, esta é uma mentira conveniente que esconde jargões igualmente mentirosos e perniciosos como:
 
       “Estas são coisas de homem!”,
       “Homens fazem isso mesmo!”
       “Isso é apenas homens sendo homens!”
 
       Todas estas e outras frases, tentam retirar a culpa pessoal dos homens levando a vítima (mulher) a acreditar que como homens não teriam outra opção que não comportarem-se como “porcos chauvinistas”, exercitando sua capacidade de serem babacas desonestos, porque mesmo que ninguém escolha nascer homem ou mulher, qualquer um escolhe ser uma pessoa melhor, mais honesta e educada com os outros.
       Neste sentido, nós homens precisamos passar a nos responsabilizar por nossas ações sem nos escudarmos em desculpas esfarrapadas que jogam toda a culpa de nossas peripécias inconsequentes e muitas vezes de uma falta de sensibilidade que beira a psicopatia, sobre o fato de sermos homens... e os homens serem assim mesmo!
 
 

domingo, 15 de setembro de 2013

Difícil mesmo é ser mulher!

Eu sou homem e talvez por isso, nunca saberei como é realmente, ser mulher, num mundo autoritário, heteronormativo e patriarcal, como o nosso. Porém, posso ao menos dar-me a oportunidade de ouvir suas vozes e tentar auscultar as injustiças e desigualdades sobre as quais elas falam, num esforço para explicar o inexplicável dessa vida sôfrega e miserável.
Tenho aprendido que nascer mulher e ser educada na sociedade em que vivemos, não é um empreendimento fácil, pois, ela tem que lidar com vários obstáculos. Aliás, desobstaculizar é um verbo que cabe perfeitamente à vida das mulheres, que ouvem desde cedo vários absurdos massacrantes.
Aprendi que ser mulher é aceitar que se faz parte do “sexo frágil” (frágil aqui lido criminosamente como incompetente) da classe que vive sob os auspícios do emocional. Por isso, é bem aceite, até desejável que as mulheres chorem enquanto os rapazes engolem em seco sempre que a ameaça de uma lágrima de qualquer natureza tenha a dignidade de molhar seus olhares supostamente insensíveis e seguros.
Ser mulher é ouvir que existem vários tipos de mulheres, mas que podem ser repartidas basicamente em dois. As boas para casar e as “outras”.
É viver em uma sociedade que nos condiciona a achar que mulher educada, inteligente abnegada e por aí fora, são apenas as nossas mães, portanto, todas as outras, não passam disso mesmo (outras!). Pessoas que por algum acidente genético são azaradamente do sexo feminino, uma desqualificação crônica que acarreta vários desdobramentos indesejáveis resultando em seres superficiais, não confiáveis, pouco ou nada racionais, incapazes de conviver com a dura realidade que os homens supostamente mais objetivos tratam de transformar, birrentas e reguladas por ciclos menstruais, menopausa, gravidez, etc., que causam desregulações hormonais doentias (de humor).
Ser mulher é ouvir sem saber bem como reagir a provocações descategorizantes, que reforçam a escabrosa ideia de que algumas até servem para casar, ter filhos e cuidar de uma família e quem sabe um dia, tornarem-se não iguais aos homens, mas numa subordinada bem comportada.
É carregar na testa o estigma de ser nada mais do que uma bunda gostosa, um peito que divide opiniões sobre se é ou não siliconado e ter outras partes do corpo depreciadas ou valorizadas apenas porque você escolheu não gastar seu tempo em uma academia, por que na cabeça masculina, você serve apenas para ser “conquistada e/ ou domesticada”, como se de um animal se tratasse.
Sexo por puro prazer, jamais! Pois isso seria uma perversão, até porque tu te tornaste a essa altura, objeto de desejo e jamais sujeito que deseja, aliás, ser humano, o que já pressupõe um panorama enorme e complexo de desejos, afetos, dinâmicas relacionais, etc.
É entrar para a faculdade e ouvir impropérios teóricos que dizem: A mulher não existe! Deixando para ti a sôfrega tarefa de saber, que corpo é esse que transporta as marcas de minhas vivências quotidianas?
Ser mulher é tentar fazer parte do mercado de trabalho, mas ser relegada apenas àquelas funções subalternas – secretária, recepcionista, ou qualquer outra que ofereça o mínimo de visibilidade, ou poder. Aliás, poder às mulheres, é considerado algo totalmente impensável, já que, supostamente, seus hormônios desregulados colocariam em risco qualquer organização que dirigissem.
Progressão profissional? Só sendo sombra, ou pior, amante de alguém.
E quando se alcança algum prestígio, não faltam dedos que levantam motivos obscuros que expliquem isso, apenas para desmoralizar tal façanha. Talvez apareça oportunamente alguém (homem, provavelmente) que reivindica a cadeira de patrono de tal conquista.
Emancipação? Uma utopia despropositada, uma mentira politicamente arquitetada para acalmar os ânimos.
Autosuficiência? Desejo proibido, quase um sacrilégio e quem ousar tentar, sofre aquilo que a sociedade considera de “justos suplícios.”
Ser mulher é ser uma mãe que é obrigada a sentir-se mal com seu sucesso profissional, em vez de ter filhos que se orgulhem por sua emancipação e emponderamento político. E seu sentimento de culpa, em relação a dificuldade em conciliar seu trabalho com sua vida afetiva, rapidamente pode ser transformado de forma perniciosa, numa prova de sua incompetência.
É repudiar ataques machistas e ser tomada como “feminista mal comida”.
É calar-se diante do assédio na rua, na escola, no local de trabalho, etc. pois a culpa é sempre da saia curta, do olhar “insinuante”, do andar feminino, da blusa provocante, ou seja, de quase tudo. Você se vê inesperadamente, tendo que cuidar da forma como respiras em público, porque aquele suspiro de cansaço de fim de expediente no elevador ou na fila do ônibus pode facilmente se converter numa provocação sexual propositada.
É sair comendo uma banana, ou chupando um sorvete, correndo o risco de ser taxada de tarada.
É não poder dispor do próprio corpo em público e muito menos em privado, é não escolher parceiros para não ser chamada de vadia.
É viver em uma sociedade que alimenta mitos como a sogra má, mulheres safadas, feministas mal comidas, etc., que alimentam a obscura estratégia do dividir para melhor reinar.
É ter que ver essa violência toda ser muitas vezes ensinada aos seus irmãos (homens) na sua própria casa e os ver sendo recompensados por serem machistas sexistas e misóginos.
Pois é, difícil mesmo, é ser mulher.

domingo, 30 de setembro de 2012

Homens (machos) à deriva


Hoje os homens vivem “tempos difíceis de manejar”, pois ser macho já não é tão fácil quanto antes, quando não existia essa proliferação de movimentos, que criminalizam quase tudo o que representa ser homem, tornando as coisas de que antes nos orgulhávamos em sua maioria, coisas vergonhosas. Perdemos as definições claras, que aprendíamos ainda meninos e as liberdades que se supunham exclusivas de um clube (de indivíduos falocêntricos) que podia praguejar sem recriminações ou pesos de consciência, criar arruaças para provar sua machesa assegurando aos adultos que estava a aprender bem a coisa e xingar para expressar seus confusos sentimentos, aliás, sentimentos era algo que quase não fazia parte de nosso rústico vocabulário, por isso sabíamos, quase intuitivamente, que em parte, ser homem era mostrar ao mínimo o que sentíamos, já que frases como: um homem nunca chora, por mais dura que seja a dor, haviam sido sistematicamente marteladas em nossas cabeças diminuindo já desde essa altura a possibilidade de tê-las um pouco mais arejadas. Porém, hoje, a maioria de nós chora pior que um recém nascido já que a certeza de estarmos sem nosso antigo norte é cada vez mais forte. 
Naufragamos em algum lugar muito estranho e estamos à deriva, vivendo  simultaneamente (mesmo sem coragem de admitir) o medo de nunca mais encontrarmos terra firme e a angústia de pousarmos em algum pântano desconcertantemente arenoso e complexo demais para nossa geografia masculina. Percebemos finalmente, que negligenciamos a crise das mulheres por séculos, deixando-as debaterem-se na (re)conquista de seus lugares e o custo disso chega agora em que experimentamos nós mesmos nossa própria crise, a qual o lendário orgulho masculino com certeza não será suficiente para ajudar-nos ultrapassá-la, pois, as antigas referências já não valem mais para afirmar nossos supostos valores e as novas, tardam a chegar. Por isso, restam-nos poucas soluções, além de tropeçarmos constantemente numa identidade caduca de Homem hetero, que perdeu a maior parte de sua tangibilidade.