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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NÓS MULHERES E A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA HISTÓRICA


María Villarreal 
Doutoranda do curso de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid
Refletir e pensar sobre a nossa história pessoal e coletiva, implica problematizar e questionar as aparências. Nesse sentido, o que somos hoje nós as mulheres, as nossas conquistas e reivindicações, têm a ver com o nosso passado ou é simplesmente fruto do acaso ou das concessões de alguém? A resposta parece óbvia, mas não é. Em relação aos direitos e condições do gênero feminino, a história oficial apresenta uma versão dos fatos que nos induz a ver como algo garantido desde sempre o acesso ao estudo, ao voto, e a outros direitos, tipo escolher como e com quem queremos viver, ou mesmo, uma maternidade desejada. Lamentavelmente alguns desses direitos ainda são um ideal para boa parte da população feminina, mas ao mesmo tempo, constituem um patrimônio de incalculável valor para uma parcela significativa de mulheres apesar das dificuldades e questionamentos contínuos.

            A minha e a história de todas nós mulheres é a soma de lutas, reclamações e demandas expressadas de forma individual e coletiva; tradicionalmente ridiculizadas e reprimidas duramente por quem controla o poder e define os bons e os maus costumes das épocas. Até antes do surgimento oficial do feminismo como heterogeneidade de movimentos e posturas que reivindicam a libertação, a dignidade e o respeito dos direitos das mulheres enquanto seres humanos, houve pessoas (mulheres principalmente, mas também homens) que se manifestaram a favor da nossa causa, pedindo o acesso à educação, afirmando a igualdade entre homens e mulheres, demonstrando a existência de problemas aparentemente “invisíveis” ou trabalhando para erradicar a violência que ameaça as nossas vidas. Hoje, relembrando toda essa história é preciso reconhecer o valor e a coragem de todas essas pessoas e dizer: OBRIGADA. Parte do que somos e temos atualmente é graças a el@s, e neste sentido, honrar a sua memória implica conhecer a história da luta pelos nossos direitos e contribuir a valorizar essa herança, defendendo aquilo que nos pertence por valor e dignidade.
A este respeito, campanhas recentes como #PrimeiroAssédio ou #MeuAmigoSecreto problematizaram vivências quotidianas e comportamentos machistas e intolerantes, muitas vezes naturalizados, considerados secundários, pouco importantes ou parte da nossa cultura. Essas campanhas são mais do que bem-vindas. Elas constituem um ato de presença e um chamado de atenção que nos permite parar para pensar que o sonho de construir uma sociedade mais justa ainda não acabou. As formas de discriminação e violência continuam existindo para nós mulheres e se agravam quando falamos de mulheres negras, lésbicas, bi ou transexuais. Por outro lado, o recente projeto de lei 5069, de autoria do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha do PMDB constitui um atentado aos nossos direitos, criminalizando a opção das mulheres de interromper a própria gravidez em casos legalmente reconhecidos e prevendo penas para quem induz, instiga ou auxilia as mulheres nesse processo. Mais uma vez a reação dos movimentos de mulheres foi significativa e sob o lema “Pílula fica, Cunha sai”, milhares de mulheres em diversas cidades do Brasil saíram às ruas para manifestar o próprio desacordo com a proposta e a necessidade de preservar os seus direitos. Através deste tipo de ações e da nossa afirmação cotidiana, todas nós somos e podemos ser forças vivas e ativas de mudança social. O trabalho pela vida plena e os direitos de todas ainda não acabou e em nome de quem doou as suas vidas e energias para nos permitir ser pessoas integrais, precisamos dar continuidade à utopia, ajudando a fazer desse mundo um lugar mais justo e melhor para tod@s.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sendo babaca e homem

      Nos últimos tempos tenho ouvido com frequência, ideias que explicam vários problemas sociais como tendo origem no fato de vivermos numa sociedade que produz pessoas problemáticas, como dá para imaginar, neste caso a culpa nunca é do nosso caráter, mas sempre de uma sociedade que educa de modo racista, machista, homofóbico e por aí fora. Assim até fica fácil justificar todos os problemas recorrendo a clichês e argumentos retóricos para arrazoar sobre atitudes totalmente irresponsáveis.
       Nós homens somos especialistas nisso, aproveitamos retóricas machistas e sexistas para argumentar a favor de nossos erros e babaquices, que incontáveis vezes produzem um sofrimento indesculpável às pessoas que dizemos que amamos.
       Assim, a traição nunca é culpa do cara, já que pode ser facilmente explicada pela educação (ou falta dela). Afinal, crescemos aprendendo que ser homem é entre outras coisas:
      
        Fazer alarde das nossas paqueras irresponsáveis, sem questionar se isso não soaria à desrespeito para a parceira, aliás, dane-se ela, porque eu tenho mesmo é de provar ser macho, deixando claro que meu ego precisa deste esforço desonesto para mostrar aos amigos aquela pose de  fodão, fazendo questão de desconsiderar inclusive os compromissos assumidos com minha parceira.
 
       Flertar com outras mulheres sem pensar no mal-estar que isso causará à relação na qual você entrou voluntariamente.
 
     Tornar o conceito de fidelidade, numa definição abstrata e nebulosa, só válida quando você pode se colocar como vítima.
 
      Defender que todas estas ações são nada mais do que “brincadeirinhas inocentes”, sem verdadeiras implicações. Porém, esta é uma mentira conveniente que esconde jargões igualmente mentirosos e perniciosos como:
 
       “Estas são coisas de homem!”,
       “Homens fazem isso mesmo!”
       “Isso é apenas homens sendo homens!”
 
       Todas estas e outras frases, tentam retirar a culpa pessoal dos homens levando a vítima (mulher) a acreditar que como homens não teriam outra opção que não comportarem-se como “porcos chauvinistas”, exercitando sua capacidade de serem babacas desonestos, porque mesmo que ninguém escolha nascer homem ou mulher, qualquer um escolhe ser uma pessoa melhor, mais honesta e educada com os outros.
       Neste sentido, nós homens precisamos passar a nos responsabilizar por nossas ações sem nos escudarmos em desculpas esfarrapadas que jogam toda a culpa de nossas peripécias inconsequentes e muitas vezes de uma falta de sensibilidade que beira a psicopatia, sobre o fato de sermos homens... e os homens serem assim mesmo!
 
 

domingo, 15 de setembro de 2013

Difícil mesmo é ser mulher!

Eu sou homem e talvez por isso, nunca saberei como é realmente, ser mulher, num mundo autoritário, heteronormativo e patriarcal, como o nosso. Porém, posso ao menos dar-me a oportunidade de ouvir suas vozes e tentar auscultar as injustiças e desigualdades sobre as quais elas falam, num esforço para explicar o inexplicável dessa vida sôfrega e miserável.
Tenho aprendido que nascer mulher e ser educada na sociedade em que vivemos, não é um empreendimento fácil, pois, ela tem que lidar com vários obstáculos. Aliás, desobstaculizar é um verbo que cabe perfeitamente à vida das mulheres, que ouvem desde cedo vários absurdos massacrantes.
Aprendi que ser mulher é aceitar que se faz parte do “sexo frágil” (frágil aqui lido criminosamente como incompetente) da classe que vive sob os auspícios do emocional. Por isso, é bem aceite, até desejável que as mulheres chorem enquanto os rapazes engolem em seco sempre que a ameaça de uma lágrima de qualquer natureza tenha a dignidade de molhar seus olhares supostamente insensíveis e seguros.
Ser mulher é ouvir que existem vários tipos de mulheres, mas que podem ser repartidas basicamente em dois. As boas para casar e as “outras”.
É viver em uma sociedade que nos condiciona a achar que mulher educada, inteligente abnegada e por aí fora, são apenas as nossas mães, portanto, todas as outras, não passam disso mesmo (outras!). Pessoas que por algum acidente genético são azaradamente do sexo feminino, uma desqualificação crônica que acarreta vários desdobramentos indesejáveis resultando em seres superficiais, não confiáveis, pouco ou nada racionais, incapazes de conviver com a dura realidade que os homens supostamente mais objetivos tratam de transformar, birrentas e reguladas por ciclos menstruais, menopausa, gravidez, etc., que causam desregulações hormonais doentias (de humor).
Ser mulher é ouvir sem saber bem como reagir a provocações descategorizantes, que reforçam a escabrosa ideia de que algumas até servem para casar, ter filhos e cuidar de uma família e quem sabe um dia, tornarem-se não iguais aos homens, mas numa subordinada bem comportada.
É carregar na testa o estigma de ser nada mais do que uma bunda gostosa, um peito que divide opiniões sobre se é ou não siliconado e ter outras partes do corpo depreciadas ou valorizadas apenas porque você escolheu não gastar seu tempo em uma academia, por que na cabeça masculina, você serve apenas para ser “conquistada e/ ou domesticada”, como se de um animal se tratasse.
Sexo por puro prazer, jamais! Pois isso seria uma perversão, até porque tu te tornaste a essa altura, objeto de desejo e jamais sujeito que deseja, aliás, ser humano, o que já pressupõe um panorama enorme e complexo de desejos, afetos, dinâmicas relacionais, etc.
É entrar para a faculdade e ouvir impropérios teóricos que dizem: A mulher não existe! Deixando para ti a sôfrega tarefa de saber, que corpo é esse que transporta as marcas de minhas vivências quotidianas?
Ser mulher é tentar fazer parte do mercado de trabalho, mas ser relegada apenas àquelas funções subalternas – secretária, recepcionista, ou qualquer outra que ofereça o mínimo de visibilidade, ou poder. Aliás, poder às mulheres, é considerado algo totalmente impensável, já que, supostamente, seus hormônios desregulados colocariam em risco qualquer organização que dirigissem.
Progressão profissional? Só sendo sombra, ou pior, amante de alguém.
E quando se alcança algum prestígio, não faltam dedos que levantam motivos obscuros que expliquem isso, apenas para desmoralizar tal façanha. Talvez apareça oportunamente alguém (homem, provavelmente) que reivindica a cadeira de patrono de tal conquista.
Emancipação? Uma utopia despropositada, uma mentira politicamente arquitetada para acalmar os ânimos.
Autosuficiência? Desejo proibido, quase um sacrilégio e quem ousar tentar, sofre aquilo que a sociedade considera de “justos suplícios.”
Ser mulher é ser uma mãe que é obrigada a sentir-se mal com seu sucesso profissional, em vez de ter filhos que se orgulhem por sua emancipação e emponderamento político. E seu sentimento de culpa, em relação a dificuldade em conciliar seu trabalho com sua vida afetiva, rapidamente pode ser transformado de forma perniciosa, numa prova de sua incompetência.
É repudiar ataques machistas e ser tomada como “feminista mal comida”.
É calar-se diante do assédio na rua, na escola, no local de trabalho, etc. pois a culpa é sempre da saia curta, do olhar “insinuante”, do andar feminino, da blusa provocante, ou seja, de quase tudo. Você se vê inesperadamente, tendo que cuidar da forma como respiras em público, porque aquele suspiro de cansaço de fim de expediente no elevador ou na fila do ônibus pode facilmente se converter numa provocação sexual propositada.
É sair comendo uma banana, ou chupando um sorvete, correndo o risco de ser taxada de tarada.
É não poder dispor do próprio corpo em público e muito menos em privado, é não escolher parceiros para não ser chamada de vadia.
É viver em uma sociedade que alimenta mitos como a sogra má, mulheres safadas, feministas mal comidas, etc., que alimentam a obscura estratégia do dividir para melhor reinar.
É ter que ver essa violência toda ser muitas vezes ensinada aos seus irmãos (homens) na sua própria casa e os ver sendo recompensados por serem machistas sexistas e misóginos.
Pois é, difícil mesmo, é ser mulher.

domingo, 30 de setembro de 2012

Homens (machos) à deriva


Hoje os homens vivem “tempos difíceis de manejar”, pois ser macho já não é tão fácil quanto antes, quando não existia essa proliferação de movimentos, que criminalizam quase tudo o que representa ser homem, tornando as coisas de que antes nos orgulhávamos em sua maioria, coisas vergonhosas. Perdemos as definições claras, que aprendíamos ainda meninos e as liberdades que se supunham exclusivas de um clube (de indivíduos falocêntricos) que podia praguejar sem recriminações ou pesos de consciência, criar arruaças para provar sua machesa assegurando aos adultos que estava a aprender bem a coisa e xingar para expressar seus confusos sentimentos, aliás, sentimentos era algo que quase não fazia parte de nosso rústico vocabulário, por isso sabíamos, quase intuitivamente, que em parte, ser homem era mostrar ao mínimo o que sentíamos, já que frases como: um homem nunca chora, por mais dura que seja a dor, haviam sido sistematicamente marteladas em nossas cabeças diminuindo já desde essa altura a possibilidade de tê-las um pouco mais arejadas. Porém, hoje, a maioria de nós chora pior que um recém nascido já que a certeza de estarmos sem nosso antigo norte é cada vez mais forte. 
Naufragamos em algum lugar muito estranho e estamos à deriva, vivendo  simultaneamente (mesmo sem coragem de admitir) o medo de nunca mais encontrarmos terra firme e a angústia de pousarmos em algum pântano desconcertantemente arenoso e complexo demais para nossa geografia masculina. Percebemos finalmente, que negligenciamos a crise das mulheres por séculos, deixando-as debaterem-se na (re)conquista de seus lugares e o custo disso chega agora em que experimentamos nós mesmos nossa própria crise, a qual o lendário orgulho masculino com certeza não será suficiente para ajudar-nos ultrapassá-la, pois, as antigas referências já não valem mais para afirmar nossos supostos valores e as novas, tardam a chegar. Por isso, restam-nos poucas soluções, além de tropeçarmos constantemente numa identidade caduca de Homem hetero, que perdeu a maior parte de sua tangibilidade.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Mudanças pelas quais eu culpo as mulheres

experiência tem-me mostrado, que os homens não acordam pensando na necessidade de mudarem de vida. Normalmente tem sempre uma mulher envolvida (entrando ou saindo  de suas vidas) por detrás daqueles discursos que usam para convencer a si próprios e aos outros, que precisavam de novos ares, de ganhar novas experiências e aproveitar a vida de modo diferente. 
As mudanças mais interessantes, surgem quando nos apaixonamos, que na verdade, nada mais é do que o efeito de hormônios, que desregulam de forma inconsequente as nossas ações, obrigando-nos a grandes transformações para impressionar a sicrana. Nessa altura, qualquer homem que se preze, pensa em deixar de lado pelo menos temporariamente, aquela calça desgastada, ou o tênis que servia para todas as ocasiões e até reaprende a importância da higiene pessoal. Alguns vão além das mudanças físicas, tentando parecer menos brutos do que o costume sem, claro, despirem completamente aquele machismo que lhes oferece a autoconfiança de que necessitam para continuarem a achar, que essas mudanças são voluntárias. No segundo caso está a mudança que resulta da saída, quando termina o efeito dos hormônios e de repente, todas coisas que achavas divertidas nela se tornam defeitos insuportáveis e fazes a grande descoberta de que no fundo a menina não era o que querias ou pensavas que fosse. Entendes finalmente que precisas de mais espaço para descobrires quem realmente és, sozinho, fazendo emergir o clássico “eu sou o problema, não você”. Aqui mudar se torna necessário, até mesmo para a tua segurança e também para evitar despertar inveja nas pessoas erradas, porém, seja qual for o motivo, mudanças são sempre difíceis, mas ao menos oferecerem, interessantes oportunidades de visualizarmos as nossas desgraças e compará-las com as dos outros, ou para suportar de maneira resignada o “eu te avisei” daqueles amigos propositadamente inoportunos, que sempre estiveram lá olhando com uma inveja velada para os teu sorrisos espontâneos e suspiros sem motivo aparente, enquanto eram forçados pelas circunstâncias a darem um sentido melodramático a tua recente felicidade, vaticinando um fim próximo e uma mudança dramática na tua vida. Fazendo-te acreditar que é isso que fazem os verdadeiros amigos.

domingo, 18 de julho de 2010

Liberdade de mulher



A pílula talvez seja uma das invenções mais importantes para a mulher moderna. Nada melhor do que a liberdade paradisíaca, resultante dessa miraculosa poção da modernidade.
Antes, apenas a mulher arcava com as conseqüências da ausência destes milagres tecnológicos, hoje ela é a maior beneficiada, economizando mais tempo para as suas necessidades estéticas, redescobrindo a beleza e reinventando funções para partes do corpo que antes não serviam para nada mais além da automaticidade materna reforçada por uma política despropositamente secular, usada para justificar a primaticidade dos instintos humanos.
Das mini-saias aos saltos, do simples rímel aos cilicones, a auto-estima feminina foi resgatada. O resultado não são apenas mulheres mais bonitas e mais altas, mas um maior espaço para mostrar que o fogão e o tanque jamais serão seus únicos destinos. Os homens agora se assustam, porque já não competem apenas com uma diligente doméstica, mas com adversários completos, que além de excepcionalmente atraentes provaram, muitas vezes serem mais inteligentes. Enquanto fingem conversar sobre futilidades, deixam os homens convencerem-se de que são mais espertos permitindo-lhes brincar com adjetivos como forte, prático e racional, que nada mais oferecem além de significados vazios e quase nenhuma utilidade. Por fim, encurralam-nos numa patética e subserviente vida, dividida entre a cerveja com os amigos na sexta à noite e o futebol no domingo à tarde. Enfim, chegamos ao ponto em que para tanta mulher tomando a pílula da auto-suficiência, há centenas de homens que ainda contam com a sua diligente doméstica (Amélia). Assim, é claro que faltam homens!
Obs: A foto acima foi retirada do site: http://www.br.taringa.net