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domingo, 22 de janeiro de 2012

Genialidade emprestada


Um amigo disse-me uma vez que “nada impõe mais limitações a um homem do que a falta de dinheiro”. Esta é uma daquelas frases, que você reluta em atribuir a alguma pessoa viva, sobretudo se for alguém próximo, afinal, nada é mais difícil de aceitar do que a genialidade de um ente querido, principalmente se ainda polui a atmosfera contigo, nos almoços familiares e bebedeiras de fim de semana.
A frase apanhou-me desprevenido, por isso fiquei com aquele semblante de novato em praia de nudismo, que não pode admitir a própria ereção por questões de princípios e não se masturba nem mentalmente, com medo de ser descoberto.
Ao me recuperar, pensei: talvez sim, principalmente  numa sociedade capitalista, porque numa socialista, as coisas seriam diferentes. Infelizmente vivemos numa, ou em várias sociedades capitalistas, onde quem não pode comprar, normalmente não pode muitas  outras coisas e dificilmente pode dar-se ao luxo de filosofar sobre a vida, pois não lhe sobra muito tempo entre as longas e fastidiosas jornadas de trabalho.
Quando chega o final de semana, a única reflexão que faz algum sentido para ele é: a que horas é o jogo? Isso quando o peso de consciência não lhe obrigar a dar atenção à família, oferecendo possibilidades de diversão  altamente criativas, (devido a falta de recursos), porque infelizmente, aquelas jornadas semanais pouco oferecem, além de uma identidade trabalhadora precária, uma satisfação ilusória, e uma dignidade mal informada, secularizada por essa tradição que não desconfia da necessidade doentia de trabalhar apenas para pagar contas, uma refinada forma trabalho forçado, que esconde obrigações artificiais, criadas propositadamente para manter o cidadão com aquele sorriso  de dever cumprido, característico da classe “trabalhadora”, que se orgulha de estar a construir uma sociedade pretensiosamente melhor, à custa de uma dignidade alienada.
Depois de todas essas idéias disparatadas, eu cheguei a minha própria conclusão, talvez o problema nem seja a falta de dinheiro, mas a falta de tempo para pensar na própria condição de vida e a ignorância. Mas pode ser que não ter dinheiro também obrigue as pessoas a se manterem ignorantes, o meu amigo teria dito algo sobre isso.

sábado, 26 de novembro de 2011

Vícios dos lugares pequenos



Muita gente não imagina uma das verdades mais inquientantes  sobre a vida: Se não ultrapassas os limites da tua cidade, corres o risco de pensar que não há mundo para além do lugar em que vives. Que a tua vila é a mais organizada que se pode conceber, não aprendes a revoltar-te contra o mundo e por isso, guerras mundiais não passarão de teorias conspiratórias para ti.
Demorei um pouco para entender essa idéia e mais ainda para aceitá-la, pois, meu patriotismo mal amadurecido sentia-se ofendido com uma sentença como essa. Para ser honesto, só a entendi plenamente quando fui obrigado a mudar de cidade e não só a entendi, mas também passei a apregoá-la aos meus amigos de forma entusiástica. Infelizmente, a maioria ainda ofendia-se, pois não se tinha libertado do síndrome do melhor lugar do mundo, que é basicamente negar tudo o que não seja conhecido, acreditar que respiramos o ar mais puro do planeta e estamos em contacto com a natureza,   esquecendo-nos convenientemente que aquilo é resultado de um subdesenvolvimento crônico, caminhar grandes distâncias com a crença de que é pelo bem da nossa saúde, quando na verdade, a falta de transportes públicos é a única razão. Viver apenas de uma agricultura de subsistência por causa da nossa desorganização intencional e doentia, apoiar projetos elitistas, que surgem camuflados de iniciativas de melhoramento da vida dos mais necessitados, desviando a nossa atenção do apartheid que produzimos quase voluntariamente,  justificado pela necessidade neurótica dos sobados nacionais de viverem de luxos injustificados ou mal explicados e sempre aceitando coisas com as quais não concordamos por causa de um costumeiro paternalismo que nos faz acreditar que algumas pessoas são insubstituíveis e supercompetentes, mesmo que a sua inépcia já tenha sido promovida a uma negligência propositada das coisas que a maioria das pessoas acha importantes para viver.
Por vivermos em cidades pequenas, não perdemos tempo com este tipo de idéias, que quase sempre são tomadas como conspirações planificadas deliberadamente para desfazer o suposto equilíbrio dessas nossas vilas, tão subdesenvolvidas e pedregosas quanto as nossas próprias cabeças, que se subjugam a uma realidade sobre a qual nunca se reflecte de uma maneira crítica e assim continuamos, tão pequenos quanto as nossas próprias cidades.