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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Angola me cansa!


Sou como milhares de angolanos, que mais por orgulho do que por um patriotismo verdadeiro, desconsideram as acusações sobre corrupção de que se ouvem falar em noticiários sensacionalista de cadeias televisivas estrangeiras, que não medem esforços para arrastar o nosso “bom nome” aos lugares mais desonrosos das listas, que qualificam os países pelo grau de honestidade e transparência na gestão pública. Porém às vezes, esse patriotismo mal informado é suplantado e posto à prova por várias situações, que somos obrigados a suportar em lugares públicos e mesmo privados. Não interessa se se trata de um cartório, um aeroporto, ou o cúmulo, uma esquadra de polícia. Sempre encontramos o espectro de uma corrupção assombrosa, tão frequente que quase se confunde com um procedimento normal e obrigatório; e se antes as pessoas, sentiam-se inibidas a oferecer subornos, hoje em dia, a coisa é escancarada e sem o mínimo de escrúpulos. Os próprios funcionários negociam infracções para garantirem no final aquele argumento que parece a única saída legal: “você me ajuda e eu te ajudo”. E quando isso acontece, não há muito a fazer pois, é sempre num timing perfeito, ou seja – tu, cidadão, desesperado, perdido, ou tão atrasado, que não te resta mais nada senão ceder, porque Infelizmente, quando há urgência e desespero a falarem mais alto, não existe sopro de bom senso, que nos sirva.
Normalmente a coisa começa com as pessoas esvaziando-se em argumentos razoáveis, passeando entre uma humildade previamente ensaiada e uma arrogância desnecessária dos agentes  e outros funcionários descaradamente corruptos, que parece formarem uma espécie de corredor polonês ao qual tu és obrigado a submeter-se, distribuindo gasosas vergonhosamente míseras, que para nada mais servem do que acabar com a tua própria dignidade, já que, ao que parece, expressões como: dignidade, honestidade e zelo não cabem nos vocabulários desses facínoras.
E então, o pobre cidadão, na ausência de qualquer possibilidade de reclamação submete-se resignadamente, guardando sua insatisfação com esperança de usá-la contra alguém, que venha um dia destes a precisar também dos seus préstimos. Generalizando-se desta forma uma estranha experiência de angolanidade, ostentada com um orgulho burro, que se baseia numa espécie de desfuncionalidade estrutural.

sábado, 26 de novembro de 2011

Vícios dos lugares pequenos



Muita gente não imagina uma das verdades mais inquientantes  sobre a vida: Se não ultrapassas os limites da tua cidade, corres o risco de pensar que não há mundo para além do lugar em que vives. Que a tua vila é a mais organizada que se pode conceber, não aprendes a revoltar-te contra o mundo e por isso, guerras mundiais não passarão de teorias conspiratórias para ti.
Demorei um pouco para entender essa idéia e mais ainda para aceitá-la, pois, meu patriotismo mal amadurecido sentia-se ofendido com uma sentença como essa. Para ser honesto, só a entendi plenamente quando fui obrigado a mudar de cidade e não só a entendi, mas também passei a apregoá-la aos meus amigos de forma entusiástica. Infelizmente, a maioria ainda ofendia-se, pois não se tinha libertado do síndrome do melhor lugar do mundo, que é basicamente negar tudo o que não seja conhecido, acreditar que respiramos o ar mais puro do planeta e estamos em contacto com a natureza,   esquecendo-nos convenientemente que aquilo é resultado de um subdesenvolvimento crônico, caminhar grandes distâncias com a crença de que é pelo bem da nossa saúde, quando na verdade, a falta de transportes públicos é a única razão. Viver apenas de uma agricultura de subsistência por causa da nossa desorganização intencional e doentia, apoiar projetos elitistas, que surgem camuflados de iniciativas de melhoramento da vida dos mais necessitados, desviando a nossa atenção do apartheid que produzimos quase voluntariamente,  justificado pela necessidade neurótica dos sobados nacionais de viverem de luxos injustificados ou mal explicados e sempre aceitando coisas com as quais não concordamos por causa de um costumeiro paternalismo que nos faz acreditar que algumas pessoas são insubstituíveis e supercompetentes, mesmo que a sua inépcia já tenha sido promovida a uma negligência propositada das coisas que a maioria das pessoas acha importantes para viver.
Por vivermos em cidades pequenas, não perdemos tempo com este tipo de idéias, que quase sempre são tomadas como conspirações planificadas deliberadamente para desfazer o suposto equilíbrio dessas nossas vilas, tão subdesenvolvidas e pedregosas quanto as nossas próprias cabeças, que se subjugam a uma realidade sobre a qual nunca se reflecte de uma maneira crítica e assim continuamos, tão pequenos quanto as nossas próprias cidades.