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sábado, 12 de maio de 2018

O Angosat 1 é apenas um sintoma

Faz algum tempo que tenho pensado em escrever sobre o Angosat 1 (o satélite angolano lançado em 2017 em cooperação com a Rússa).
Gostaria de partir da premissa de que o Angosat 1 é um Sintoma!
Como sabemos, um sintoma é de maneira geral a descrição de um mal-estar relativo à determinada situação ou evento que cause sofrimento.
Mas então, porquê o Angosat 1 seria um sintoma e do quê exactamente (de que doença)?
Pois bem!
O Angosat 1 é um sintoma da situação do nosso querido e amado país. O que eu quero dizer, em outras palavras é que o Angosat 1 representa um mal-estar geral vivido por nós angolanos há vários anos. Ele é mais um de vários e antigos avisos de que há coisas que merecem a nossa atenção. Aqui é importante dizer que essas coisas são merecedoras de atenção  não somente da presidência, mas de toda a nação.
Enquanto sintoma, o Angosat 1 engrossa uma lista de que fazem parte, projectos de grande e de pequena importância tais como a Barragem de Laúca, que pouco depois de inaugurada apresentou problemas relacionados à uma infiltração provocada pelas chuvas, o fracasso do PAPAGRO, depois de ter consumido cerca de 515 milhões de dólares, o Hospital Geral de Luanda, que teve que ser fechado temporariamente, logo depois da inauguração, sem que se tenha tornado público o investimento nele aplicado, os problemas com o Fundo de Combate à Malária, os desvios relacionados ao Fundo Soberano, a falência do programa Merenda Escolar, entre vários outros. Todos eles têm uma característica fundamental:
Foram concebidos para falhar!
Nenhum deles foi feito e pensado para funcionar, ou ao menos para funcionar à longo prazo, mas para falhar espalhafatosamente. Neste sentido eles ironicamete, deram tão certo quanto se podia esperar. Esta minha conclusão é sustentada pelo facto de que a única variável consistente em todas estas obras e outras não citadas é a sua morte anunciada.
São na sua maioria projectos que lembram as obras faraônicas que alimentaram a derrocada da utopia megalomaníaca do Ghana, quando conselheiros ocidentais, cheios de “boas intenções” ofereceram ideias e planos que prometiam transformar o Ghana acabado de sair das mãos de seus antigos colonizadores numa espécie de delírio, que levaria ao surgimento de uma suposta versão africana dos Estados Unidos, construindo grandes edifícios de luxo quase sem nenhuma utilidade. Alguns dos quais nem sequer foram concluídos.
Contudo, questões como a desonestidade crônica da governança, a falta de transparência e um anti-patriotismo patológico, tornam-se apenas corrolários dos problemas de fundo.
O modus operandis é o mesmo, por meio de empréstimos e concepções estrastoféricas e predatórias, ocidentais oferecem-se para contribuir num suposto desenvolvimento acelerado do país. Os líderes desavisados, ou alimentados por delírios megalomanícos aceitam e passam a seguir uma agenda que muitas vezes coloca o povo em 6º, 7º ou 8º lugar.
Angola, tal como outros no passado e mesmo no presente, tem caido consistentemente na mesma armadilha seduzida pela promessa  de um crescimento acelerado, quase mágico, contudo sem pensar no básico, ou pior, negligenciando a própria população.
Só assim se justifica que por exemplo, se tenha priorizado a construção de um satélite de USD 252.000.000 (duzentos e cinquenta e dois milhões de dólares norte americanos) num país em que o Indice de Desenvolvimento Humano coloca-nos no 150º lugar numa lista de 188 países, enquanto os hospitais quase não têm medicamentos, alunos estudam debaixo de árvores, contingentes enormes de angolanos vivem sob condições subhumanas e a pobreza se torna um verbo conjugado diariamente por milhares de cidadãos sem uma aparente preocupação por parte daqueles que nos governam.
Portanto, o Angosat 1 é isso mesmo, um sintoma!
Um sintoma da nossa inércia enquanto cidadãos.
Um sintoma da falta de consideração de quem nos governa.
Um sintoma da falta de comiseração daqueles que vivem privilégios estratosféricos à custa da morte e miséria de outros.
Um sintoma, enfim, do nosso fracasso enquanto projecto de nação!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Heróis


Provavelmente algumas pessoas se questionam, sobre a razão de  tantos problemas sociais e frustrações pessoais. Para mim, apenas significa que precisamos de novos heróis, porque aqueles em que acreditávamos e nos faziam dormir o sono despreocupado de cadáveres, morreram! Ao termos decidido procurá-los nos lugares errados, ao perdermos a esperança e a vontade de mantê-los vivos, afinal, nós lhes dávamos vida em nossos sonhos disparatados de criança, antes de cometermos o erro de “crescer”.
Passamos a procurar mais longe, deixando de escolhê-los entre as pessoas do nosso quotidiano, dentre aquelas que faziam coisas aparentemente simples, mas sobre humanas e aguentavam pacientes nossas birra e paranóias, com sorrisos  compreensivos diante dos nossos acessos de rebeldia desnecessária e não desistindo de se sentirem pais, condicionados por um amor quase nunca recompensado ou reconhecido, continuando a resolver os nossos problemas a despeito de tudo e arranjando justificações para os nossos piores erros, poupando-nos pelo máximo tempo possível de assumir responsabilidades.
Eles são, por isso, os nossos verdadeiros heróis, ainda que nos tenhamos desacostumado a invocá-los e a reconhecê-los. Pensamos em nós próprios como super-humanos, matando as nossas antes saudáveis utopias, destruindo voluntariamente aquela antiga vontade de experimentar uma vida descompromissada com tudo o que não fizesse parte de nossa natureza. Abraçamos um progresso muitas vezes destrutivo e destituído de subjetividade e depois choramos, nos perguntando hipocritamente, para onde foram nossos heróis? Aqueles que negligenciamos por orgulho de uma auto-suficiência confusa e desnecessária, ou por uma  vaidade doentia e narcísica.