Há alguns dias peguei-me pensando a
respeito das ditaduras, é isso mesmo! Não é novidade para ninguém, que o mundo parece estar cheio delas, apesar de algumas
vezes estarem travestidas de democracias, aliás. Uma das grandes proezas destes
sistemas de gerenciamento, é sua habilidade para disfarçarem-se de coisas mais
facilmente tragáveis pela nossa famigerada ignorância, mascarando-se de
liberdades ilusórias, possibilidades de escolha e/ ou igualdade de
oportunidades. Apregoando probabilidades que nunca possuímos, através de
discursos, que utilizam de forma prostitutiva, jargões facilmente transformados
em lugares comuns, quando se aborda o assunto, convertendo ideias como: livre
arbítrio, liberdade de expressão, livre pensamento, participação democrática,
decisões coletivas, etc. em panfletarismos baratos e sem significado algum para
a maior parte das pessoas. Portanto, nossas supostas escolhas não passam de opções
arranjadas de maneira quase conspiratória, de modos que as pessoas possam
convencer-se de que são elas mesmas as fazedoras de suas histórias, quando na
verdade, não passam de reprodutoras de uma filosofia totalmente inteligível,
enquanto são coagidas a acreditar de forma sistemática e compulsória, que suas
convicções sobre escola, profissão, família e outras coisas, são o resultado de
um interessante exercício de reflexão crítica, ou de uma panaceia
introspectiva, esterilizada de estímulos presentes em seus frustrantes
quotidianos. Talvez seja melhor viver assim, pois, alguns de nós, talvez não
conseguissem conceber que nem mesmo o que vestimos seja devido a um direcionamento
prévio de seu senso estético, ou que casamos mais por que aprendemos que este é
um valor importante, do que por termos descoberto o amor de nossas vidas, e
ainda, que querer ser adulto está longe de se relacionar à uma pretensa necessidade
de se tornar responsável por si e pelos seus atos. Finalmente, é pura utopia
achar, que escolhemos objetos, lugares, pessoas e situações simplesmente por gostarmos
delas. O sistema manipula-nos, fazendo-nos acreditar que, o que dizemos são
ideias desenvolvidas por nós próprios, a respeito do mundo, quando na maior parte
das vezes só escolhemos entre as opções que nos são previamente oferecidas.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Importância de uma boca grande
Todo mundo sabe que o truque mais antigo para se ganhar uma luta é uma boca grande, pois não há demonstração de força, maior do que a capacidade de assustar as pessoas com sentenças ameaçadoras construídas por meio de palavras, que aterrorizam até quem as profere. Não falo necessariamente de xingamentos mas da conhecida volúpia daquelas intimidações feitas, enquanto disfarçamos o medo de apanhar, com uma altivez totalmente desconcertante para o nosso adversário, quando no fundo toda aquela aparente coragem não passa de um engodo de que se valem os que cedo aprenderam, que as batalhas ganham-se no bate-boca que antecede todo o confronto físico.
Não é por acaso que os exércitos sempre começam com demonstrações acrobáticas de voo, tentando passar a “clara” mensagem da perícia dos seus pilotos (se bem que no caso dos kamikazes essa talvez não fosse uma questão importante). Assim, as manobras que assistimos, deixando-nos boquiabertos pela sua quase improbabilidade, nada mais são do que bocas grandes gabando-se de uma supremacia muitas vezes ilusória e mentirosa, da mesma forma que os destacamentos armados, marchando nas praças públicas, que contagiam o povo com promessas de vitória, legitimadoras da morte desnecessária de milhões de jovens ingressados nas fileiras dos exércitos por pura ingenuidade, ou por uma ideia distorcida de dever patriótico. A mesma função, é cumprida também pelos desfiles alegóricos de carros de combate, com alto poder de fogo, ação de choque, alta mobilidade e sistemas sofisticados de comunicação, usados para nos iludirem com uma falsa ideia de segurança, que mascara de propósito um belicismo que afronta a todos os ideais de liberdade e justiça, conquistados a duras penas nos últimos séculos, além de destruírem a ideia romântica de revolução, que a história tem tratado de apresentar-nos como uma representação quase esteticamente aceitável da violência a ela inerente.
domingo, 30 de setembro de 2012
Homens (machos) à deriva
Hoje
os homens vivem “tempos difíceis de manejar”, pois ser macho já não é tão fácil
quanto antes, quando não existia essa proliferação de movimentos, que
criminalizam quase tudo o que representa ser homem, tornando as coisas de que
antes nos orgulhávamos em sua maioria, coisas vergonhosas. Perdemos as
definições claras, que aprendíamos ainda meninos e as liberdades que se
supunham exclusivas de um clube (de indivíduos falocêntricos) que podia
praguejar sem recriminações ou pesos de consciência, criar arruaças para provar
sua machesa assegurando aos adultos que estava a aprender bem a coisa e xingar
para expressar seus confusos sentimentos, aliás, sentimentos era algo que quase
não fazia parte de nosso rústico vocabulário, por isso sabíamos, quase
intuitivamente, que em parte, ser homem era mostrar ao mínimo o que sentíamos, já
que frases como: um homem nunca chora, por mais dura que seja a dor, haviam
sido sistematicamente marteladas em nossas cabeças diminuindo já desde essa
altura a possibilidade de tê-las um pouco mais arejadas. Porém, hoje, a maioria
de nós chora pior que um recém nascido já que a certeza de estarmos sem nosso
antigo norte é cada vez mais forte.
Naufragamos em algum lugar muito estranho e
estamos à deriva, vivendo simultaneamente (mesmo sem coragem de admitir)
o medo de nunca mais encontrarmos terra firme e a angústia de pousarmos em
algum pântano desconcertantemente arenoso e complexo demais para nossa
geografia masculina. Percebemos finalmente, que negligenciamos a crise das
mulheres por séculos, deixando-as debaterem-se na (re)conquista de seus lugares
e o custo disso chega agora em que experimentamos nós mesmos nossa própria
crise, a qual o lendário orgulho masculino com certeza não será suficiente para
ajudar-nos ultrapassá-la, pois, as antigas referências já não valem mais para
afirmar nossos supostos valores e as novas, tardam a chegar. Por isso,
restam-nos poucas soluções, além de tropeçarmos constantemente numa identidade
caduca de Homem hetero, que perdeu a
maior parte de sua tangibilidade.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Praça da miséria
Como
sempre, às manhãs de sábado eram as alturas que as pessoas usavam como desculpa
para visitar os populosos mercados, conhecidos no seio popular com praças. Não
muito porque era o nome que melhor se adequava, mas principalmente, devido ao
fraco vocabulário das pessoas humildes. Assim, na ausência de expressões
linguisticamente mais ricas, colava-se na boca do povo, majoritariamente
analfabeto, o simples “vou na praça”, que servia para expressar a assustadora
diversidade de utilidades, que aquele espaço simultaneamente informal, ilegal e
marginal, possuía. Por isso, engana-se quem imagina esses lugares como sendo
apenas espaços de venda de bens e serviços, que mantinham à duras penas a já
difícil subsistência de milhares de
cidadãos, expatriados de quaisquer direitos sociais e civis, salvo quando sua
opinião valesse o voto, que faria a
diferença entre uma monarquia ilegal e uma série de Promessas de Governo com
uma competência duvidosa, devido aos interesses
escusos, que sustentavam seus discursos pretensamente patrióticos. Essas
praças, como queríamos dizer, expunham também uma forma de vida característica
de um grupo, que está condenado a conformar-se com um distanciamento social
crônico e desnecessário entre cidadãos de uma mesma nação, pois estavam fadados
a viver como nacionais de 3ª classe, afinal, jamais lhes tinha sido explicado,
quê “estória” é essa de igualdade de oportunidades, direitos civis, dignidade
social, etc., todos conceitos muito difíceis de serem entendidos por essas pessoas,
pois eram tão abstratos e tão difíceis de ilustrar quanto 3 refeições por dia,
um salário, ou, um emprego de fato, já que as únicas coisas que estavam
acostumadas a viver reproduziam uma taxa de desemprego altíssima, condições de
vida precárias e uma impossibilidade dolorosa de sonhar com dias melhores.
Então,
as grandes praças, eram o remendo possível de uma situação impossível, pois
aceitava sem preconceitos, que por lá proliferassem todos, comprando, vendendo,
trocando e enganando, sempre que possível para fermentar o lucro apertado, que
oferecia o monte de tomate estragado de tanto calor, de 5 por 300,00, a carne
coberta de tanta mosca que os clientes preferiam não ver, a roupa que se fingia
nova em folha, para bem da transação e que guardava histórias desinteressadas
sobre o quotidiano das pessoas que pululavam pelo mercado por verdadeira
necessidade, ou apenas por interesse turístico, que muitas vezes saia mais caro
do que os pulas alheios esperavam, roubados mesmo nas barbas de uma polícia impávida,
que acostumou-se a observar, mais do que a agir. Ninguém sabe se por covardia,
ou por conluio com os ladrões que se dividiam em bandos altamente organizados
para garantir resultados cada vez mais eficazes, deixando assim, que suas
histórias de fracassos individuais se diluíssem numa espécie de sucessos
coletivos, mesmo que todo aquele esforço e júbilo terminasse apenas em algumas
cervejas, tomadas na barraca de uma Tia Maria qualquer, que guardava o dinheiro
evitando perguntas, para não se chatear com a obviedade das respostas.
sábado, 25 de agosto de 2012
Departamento de perguntas idiotas
Imagine uma pessoa estatelada no chão, depois
de uma queda pública espalhafatosa, quando aparece um Zé da Esquina, que
pergunta despropositadamente:
- E então, caíste? Como se tudo que tinha
acontecido pudesse ter sido um teatrinho feito apenas para atrair a atenção de
um bando de desconhecidos. Claro que na maioria destes casos você está tão
desmoralizado, que no máximo apenas te vai sobrar inspiração para dirigir-lhe
um olhar fulminante. E então, depois de passado o susto lá vem silenciosamente
a resposta, que gostarias de ter dado naquela altura:
- Não. Estava somente a experimentar uns
malabarismos e a explorar as limitações mecânicas do meu corpo!
Imagino que muitos, já tiveram aquela vontade
quase assassina de responder com tolerância zero à esse tipo de pergunta.
Afinal, o “tipo” já viu a obviedade da resposta e mesmo assim ainda te provoca
com aquela pergunta asquerosamente imbecil e não me digam que é por boa
educação, porque nesse caso não perguntaria, ajudaria a levantar, ou melhor
ainda, cairia também, só para mostrar solidariedade. Em minha opinião, é mesmo
imbecilidade, perguntar a que horas sai o autocarro (ônibus) das sete, como se
existisse algum planeta em que ele sai às oito, sem deixar de ser “o das sete”,
por este motivo, meu amigo não poupa impropérios quando alguém liga para o seu celular,
perguntando pelo dono do telemóvel. Mas claro que às vezes ele abre um
parêntesis de condescendência à deselegância da pergunta:
- Não, é que ele deixou o telemóvel na praça,
porque está fazendo campanha contra a descriminação à perguntas esdrúxulas!
Mas é também verdade, que nós mesmos não
somos imunes a isso e às vezes só nos apercebemos da redondeza da nossa bem
intencionada pergunta, depois de uma resposta brincalhona de um sicrano
qualquer:
- Não, não estou aqui, é apenas uma projeção
holográfica, pois neste momento estou gozando umas férias no Havaí, apreciando
a brisa que me chega do vai e vem preguiçoso das ondas.
E uma resposta tão criativa quanto essa dói tanto
que te faz lembrar aquela pancada despropositada na porta, ou janela deixada
aberta por acaso, como se estivesse lá apenas para te fazer ouvir um irritante:
- Doeu? Ainda mais despropositado ao qual
adorarias responder sem a polidez convencional:
- Queres experimentar, seu despenteado mental?
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