quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Não há nobreza em tolerar quem já se parece com a gente*

Falar sobre racismo por vários motivos é sempre incômodo. sobretudo para quem sofre, evidentemente porque a pessoa sente na pele o efeito deste tipo de discriminação e a procura de reparação (legal) não torna necessariamente a vivência da situação menos constrangedora, muito pelo contrário, pois invariavelmente a própria busca por justiça pode se tornar um calvário. Seja pela exposição da vítima, pois ela precisa de explicar várias vezes o ocorrido e nos casos em que os agentes de justiça não entendam ela precisa de explicar também porquê aquele evento está sendo denunciado como racismo.
Não é incomum vermos atos de racismo serem transformados em injúria racial (esta permite que o acusado sai sob fiança enquanto o outro é um crime inafiançável). Esta situação pode trazer pelo menos dois problemas para quem sofreu a discriminação: (1) Uma descrença na justiça devido ao sentimento de impunidade perante a transformação de um crime de racismo em uma infração menor que permite que o agressor saia mais ou menos tranquilo e (2) O desconforto que a vítima pode sentir por aparentemente não se ter dado a devida consideração a sua versão da história, ou seja ela foi minimizada, como se a pessoa tivesse acrescentando coisas para parecer maior do que realmente era.
É sobre este segundo ponto que gostaria de falar, tentando problematizar algo que me parece cada vez mais corrente, sobretudo nos grupos de discussão que se criam nas redes sociais. Vou usar a expressão usada por várias outras pessoas “o mimimi do racismo”.
Minha compreensão sobre o uso desta e de outras expressões equivalentes, me parece ser, notadamente uma tentativa de silenciamento das reivindicações de pessoas que se envolvem na luta pela igualdade de direitos em uma sociedade que é assumidamente multirracial, mas que infelizmente só exerce a tal da democracia racial discursivamente, porquanto na prática cada vez mais as pessoas que se levantam para falar alguma coisa a respeito são consideradas como diz a Aline Oliveira (Mimim do racismo) “mente fechada”. Ou seja, não interessa se você se sentiu incomodada, ou incomodado por algum post, comentário, fotografia, ou charge racista com que você infortunadamente tropeçou nalgum dos grupos de que você participa, terás que manter a boca fechada e levar sua indignação para outro lugar, porque se tiveres a ousadia de reivindicar, questionar, ou apenas dar uma opinião contrária à da maioria estarás buscando ofensas para décadas de terapia. Muitas vezes a acusação mais reducionista é: “Para você agora é tudo racismo!”
Lembro de uma entrevista em que foi perguntado ao artista Renato Aragão, se eram racistas as piadas que faziam com o Mussum, ao que ele respondeu:“Ninguém entendia isso como racismo, ninguém. Eram brincadeiras, eram caricaturas.”
Diante destas palavras fico pensando como para muitas pessoas as palavras do artista não causam o mínimo incômodo e nem se perguntam se será possível que as piadas dos trapalhões se tenham tornado racistas apenas agora no século XXI? Acho que quem acredita nisso deve ter muita preguiça de exercitar os neurônios, pois nem imaginam que o que pode ter acontecido (além de várias outras hipóteses, é claro) é que a sociedade começou a organizar-se politicamente tornando os movimentos sociais que discutem questões raciais, direitos das mulheres, direitos das pessoas LGBT, etc. cada vez mais fortes de tal sorte que vozes ontem silenciadas, hoje podem ser ouvidas e exigem ser igualmente respeitadas.
Então, para aqueles que talvez pensem nessas reivindicações reduzindo-as apenas a uma patrulha, uma onda de vitimismo, um excesso de zelo, ou mimimi, seria bom saber que o mundo está mais atento aos fascismos nossos de cada dia e por isso precisamos aprender ou nos forçar a respeitar principalmente o diferente. Pois não há nobreza em tolerar o igual, já que este se parece com a gente!
Considerando que muitas vezes quem se sente incomodado com o suposto mimimi são justamente as pessoas que se beneficiam de certos privilégios, que são o resultado da exclusão dos negros, não posso deixar de pensar que essa falta de sensibilidade representa de um lado a total ignorância que algumas pessoas brancas demonstram em relação ao sofrimento de não-brancos e nesse caso específico de negros, quanto ao fato de terem que lidar quotidianamente com várias situações que os levam a sentirem-se inferiorizados, desde a uma tentativa de encontrar emprego, uma abordagem policial e até pelo humor. Chamar de vitimismo ou mimimi às reivindicações da população negra demonstra não apenas uma grande falta de respeito, mas mais grave ainda, um desconhecimento crônico e lamentável da história de escravatura sobre a qual o Brasil foi construído e de seus perversos contornos.
A obra “A Abolição” de Emília Viotti da Costa* é rica em detalhes sobre essa perversão, que deixou como herança por um lado uma população negra, que nem pode fazer qualquer apontamento que é tomado por vitimismo (e essa é apenas uma das mais insignificantes das consequências) e por outro lado, um grupo que ainda não aprendeu a diferença entre privilégio e direito.
Dentre as várias lições históricas que Emília nos oferece, uma que me pareceu interessante e atual (considerando as revoluções sociais contemporâneas, as conquistas da esquerda e os obstáculos encontrados devido a onda de conservadorismo) tem a ver com a mudança progressiva das convicções das pessoas quanto a questão da escravatura, ou seja, a escravidão era praticada a três séculos e ninguém questionava a ilegitimidade da mesma. Para a sociedade brasileira da época era normal e até desejável não apenas ter escravos, mas comercializá-los como simples objetos, tratá-los a seu bel prazer e/ou passá-los de pais para filhos como parte da herança familiar. Deste modo, se parodiando Renato Aragão, chegaríamos facilmente à irônica conclusão de que: estava tudo bem, era normal e ninguém via problema nenhum, ninguém via maldade na escravatura! Quer dizer os brasileiros de hoje (Séc. XIX em diante) são uns “”, porque não são mais capazes de ver os benefícios da escravidão para o país?
Bom, é preciso lembrar que para estar tudo bem foi necessário relativizar, os direitos humanos e depois a própria constituição brasileira, daí ficava fácil dizer que a escravatura não era um problema, porque ninguém achava execrável que pessoas (negras) fossem separadas das suas famílias e vendidas, marcadas como gado, porque ninguém via como violação dos direitos humanos, afinal eles nem eram humanos! O direito de se indignar da sua condição era-lhes recusado, porém, estava tudo bem, era normal e ninguém via problema nenhum, ninguém via maldade na escravatura. Isso mesmo!
Exatamente por esta razão, enquanto algumas pessoas (emancipacionistas e abolicionistas) tinham começado a levantar-se contra a escravidão, existiam outras que pensavam sobre a abolição da escravatura, o equivalente ao que alguns brancos hoje pensam sobre o racismo, cotas e outras questões raciais:
Que não havia necessidade de criar tanto caso com a questão do negro, ou pior, que era muita ousadia dos escravos aspirarem à abolição!
Ou como hoje, que é muita ousadia dos negros e pobres, viajarem de avião, estudarem em universidades públicas, organizarem manifestações, exigirem cotas raciais, etc.
Em suma, é muito mimimi desse povo!
Pois bem na época da escravatura também se consideravam muito mimimi as propostas e reivindicações com vista a abolição da escravatura (alguém mais vê alguma semelhança?) e Viotti nos serve com alguns bons e velhos exemplos históricos:
-O Deputado Silva Guimarães propôs uma lei que garantisse a liberdade dos nascituros, mas a mesma não teve sucesso;
-O projeto de lei de Silveira da Mota (proibindo venda sob pregão, leilões, e separação de famílias) demorou nove anos para ser aprovado na câmara;
-A Lei do ventre livre, só em teoria garantia a libertação dos escravos, pois a mesma lei permitia que essas crianças permanecessem ao serviço dos senhores escravistas até à idade de 21 anos prestando “serviços gratuitos” em retribuição pelo seu sustento;
-A lei dos sexagenários (emancipação de escravos com 60 anos), foi igualmente recebida de mau grado, tornando incompreensível e revoltante a ganância de quem enriquecia com o trabalho escravo, pois mesmo depois de ter explorado o trabalho de outros por 60 anos de suas vidas, ainda se recusavam a dar àquelas pessoas a mínima possibilidade de liberdade e isso numa altura em que já estava inequivocamente claro até para os espíritos menos esclarecidos, que a abolição era a coisa certa a fazer.
Com o tempo a própria história encarregou-se de mostrar a necessidade de mudança, deste modo, se a simples ideia da abolição era inaceitável em 1871, dezessete anos depois a escravatura seria abolida sem dificuldade. Mas de novo, isso não significou necessariamente ampla liberdade e acesso irrestrito aos mesmos direitos e espaços (A abolição da escravatura: a liberdade que não veio). Ou seja, ainda precisou-se (e continua se precisando!) de muito “mimimi” para conseguir essa famigerada “ampla liberdade”.
Por tudo isso, minha esperança e desejo é que as questões do negro e do afro-brasileiro sejam um dia vistas como muito mais do que simples vitimismo, ou uma patrulha social e que as pessoas despertem para o fato, de que se hoje várias referências depreciativas do negro são repudiadas, não é porque antes elas fossem menos ofensivas, mas porque estamos todos (não apenas negras e negros) cada vez mais conscientizados dos danos que elas causam. Se há tanto mimimi, é porque continua sendo produzido sofrimento e felizmente na atualidade as pessoas já não têm medo de mostrar publicamente sua indignação.

Referência
Costa, E. V. A abolição. São Paulo. Global editora. 1986.

*Este texto foi publicado primeiramente na revista Pragmatismo Político em: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/01/nao-ha-nobreza-em-tolerar-quem-ja-se-parece-com-a-gente.html

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NÓS MULHERES E A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA HISTÓRICA


María Villarreal 
Doutoranda do curso de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid
Refletir e pensar sobre a nossa história pessoal e coletiva, implica problematizar e questionar as aparências. Nesse sentido, o que somos hoje nós as mulheres, as nossas conquistas e reivindicações, têm a ver com o nosso passado ou é simplesmente fruto do acaso ou das concessões de alguém? A resposta parece óbvia, mas não é. Em relação aos direitos e condições do gênero feminino, a história oficial apresenta uma versão dos fatos que nos induz a ver como algo garantido desde sempre o acesso ao estudo, ao voto, e a outros direitos, tipo escolher como e com quem queremos viver, ou mesmo, uma maternidade desejada. Lamentavelmente alguns desses direitos ainda são um ideal para boa parte da população feminina, mas ao mesmo tempo, constituem um patrimônio de incalculável valor para uma parcela significativa de mulheres apesar das dificuldades e questionamentos contínuos.

            A minha e a história de todas nós mulheres é a soma de lutas, reclamações e demandas expressadas de forma individual e coletiva; tradicionalmente ridiculizadas e reprimidas duramente por quem controla o poder e define os bons e os maus costumes das épocas. Até antes do surgimento oficial do feminismo como heterogeneidade de movimentos e posturas que reivindicam a libertação, a dignidade e o respeito dos direitos das mulheres enquanto seres humanos, houve pessoas (mulheres principalmente, mas também homens) que se manifestaram a favor da nossa causa, pedindo o acesso à educação, afirmando a igualdade entre homens e mulheres, demonstrando a existência de problemas aparentemente “invisíveis” ou trabalhando para erradicar a violência que ameaça as nossas vidas. Hoje, relembrando toda essa história é preciso reconhecer o valor e a coragem de todas essas pessoas e dizer: OBRIGADA. Parte do que somos e temos atualmente é graças a el@s, e neste sentido, honrar a sua memória implica conhecer a história da luta pelos nossos direitos e contribuir a valorizar essa herança, defendendo aquilo que nos pertence por valor e dignidade.
A este respeito, campanhas recentes como #PrimeiroAssédio ou #MeuAmigoSecreto problematizaram vivências quotidianas e comportamentos machistas e intolerantes, muitas vezes naturalizados, considerados secundários, pouco importantes ou parte da nossa cultura. Essas campanhas são mais do que bem-vindas. Elas constituem um ato de presença e um chamado de atenção que nos permite parar para pensar que o sonho de construir uma sociedade mais justa ainda não acabou. As formas de discriminação e violência continuam existindo para nós mulheres e se agravam quando falamos de mulheres negras, lésbicas, bi ou transexuais. Por outro lado, o recente projeto de lei 5069, de autoria do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha do PMDB constitui um atentado aos nossos direitos, criminalizando a opção das mulheres de interromper a própria gravidez em casos legalmente reconhecidos e prevendo penas para quem induz, instiga ou auxilia as mulheres nesse processo. Mais uma vez a reação dos movimentos de mulheres foi significativa e sob o lema “Pílula fica, Cunha sai”, milhares de mulheres em diversas cidades do Brasil saíram às ruas para manifestar o próprio desacordo com a proposta e a necessidade de preservar os seus direitos. Através deste tipo de ações e da nossa afirmação cotidiana, todas nós somos e podemos ser forças vivas e ativas de mudança social. O trabalho pela vida plena e os direitos de todas ainda não acabou e em nome de quem doou as suas vidas e energias para nos permitir ser pessoas integrais, precisamos dar continuidade à utopia, ajudando a fazer desse mundo um lugar mais justo e melhor para tod@s.



sábado, 14 de novembro de 2015

Eu, mulher negra, “(r)existo”


Karen Y'Almeida, graduada em Letras 
(Unesp, campus de Assis)
(R)existência”
Quilombo meu minha morada,
corpo meu, minha morada.

Nele unifico minha ancestralidade,

nele identifico e sou identificada,

corpo cicatrizado, pele marcada.


Quando pequena, lembro-me de não encontrar personagens negros nos livros literários da escola, nem com cabelos trançados, nem com os cabelos úmidos como frequentemente ficavam ajeitados os meus pra não armar e ficar feio, porque sabe como é cabelo ruim é igual ladrão, se não tá preso tá armado!
Minha mãe dizia que tinha feito curso de cabelereiro pra poder cuidar do cabelo das três filhas. Acho que a primeira vez que alisei os meus foi lá pelos 10 anos, não sei... só sei que achava lindo, apesar do incomodo de dormir de bobes e mais tarde pelos puxões de cabelo da escova, depois ferro e então chapinha. Na escola, um pouco mais tarde, lembro-me das aulas de História, nas quais o tema "Escravidão" aparecia em requintados quadros que retratavam cenas de humilhação sofridas pelos negros africanos. Num plano subjetivo, pareciam estar em uma parede, empoeirados por restarem ali desde sempre para que os descendentes dos escravos escravizados sempre se lembrassem do seu devido lugar. Claro que não percebia as aulas com olhar crítico, o que eu sentia ao ver as pinturas de Rugendas e Debret, charges ou ouvir o professor pronunciar escravo negro era um desconforto sem saber o porquê. Vergonha, pode ser que seja esse o nome ou pode ser que ainda não tenha encontrado um. Não queria parecer com nenhum dos escravos escravizados, nem com Zumbi, que parecia ser o único esperto ali na historinha que ela contava.
Quando alguém se referia a mim como negra até pouco tempo atrás eu sentia o mesmo desconforto de quando menina. Como se essa categoria não me pertencesse, estivesse bem longe de mim, num quadro empoeirado em alguma parede para que pessoas pretas se lembrassem do seu lugar.
Porque eu? Eu sou morena, meu pai é quase branco, ah! A minha avó é branca... meu cabelo com ferro até fica liso, meu nariz com pregador pode afinar: – Você tem que limpar o nariz assim filha, pra não achatar, dizia minha mãe. Quem sabe assim aquele principezinho da escola até pode olhar pra mim e não para minha amiga branca, loira, linda e tudo o que eu queria ser? Embora ela quisesse ser uma das meninas da revista e das novelas, que pareciam com ela, só que esqueléticas. Lembro-me de ter visto uma vez uma menina “morena” de cabelos alisados em uma revista sobre adolescência e puberdade, é!
Nas novelas eu não me encontrava não, mas via muito a minha mãe. Mulher negra, foi passista quando morávamos na capital (ou moravam, eu nem tinha nascido ainda), amamentou filho que não era dela e trabalhou de empregada na casa de duas famílias brancas muito bondosas quando mudamos pro interior... Sabe como é, pobres e pretos na Babilônia se puder cair fora cedo evita estatística. Era uma casa de manhã e outra à tarde, os patrões sempre gostaram muito dela – não é difícil não, d. minha mãe é a melhor pessoa que conheci nesse mundo – gostavam tanto que muitas vezes ganhávamos algumas sobras de comida pra nossa janta também. Nessa época eu era bolsista na escola. Pra sua irmã eu consegui ajeitar os dentes, pra você eu consegui o colégio, ela dizia. Lembro-me das festas de aniversário  nas quais eu nunca podia ir por não termos dinheiro, mas uma vez eu emburrei com minha mãe e fiquei sem conversar com ela por não poder ir a uma festa de 15 anos. Ela ficou tão mal que a patroa comprou a sandália pra que eu pudesse ir. Então, eu fiquei mal. E esbravejei, em silêncio, estar naquela escola onde eu me sentia envergonhada por ter uma mãe empregada, por chegar sempre a pé, por ser a diferente, ser o patinho feio, embora de coleguismo eu não pudesse reclamar porque sempre fui moça prosadeira.
Até que chegou uma época que eu comecei a perceber que o meu corpo despertava mais interesse dos meninos do que qualquer coisa que houvesse dentro ou fora da minha cabeça, não demorou pra eu entender que eu poderia ser querida por alguém tanto quanto as meninas brancas, quem sabe até por aquele galãzinho da escola, porque enfim algo chamava atenção em mim. E percebi que na televisão também era assim... então era normal, né? E aí que um pouco antes de entrar na graduação, antes de ir embora, eu conheci um principezinho que se interessou por mim. Um dia fomos pra casa dele, uma bela de uma casa, diga-se de passagem. Lembro que me disse
Eu sempre quis ficar com uma mulher morena assim. Estávamos ambos nas primeiras vezes então e... the end.
Talvez a vida universitária fosse diferente e agora eu nem passava ferro, era chapinha mesmo! E continuei a perceber que meu corpo era mais interessante do que qualquer coisa que eu dissesse ou parecesse, embora à noite fosse boa, à luz do dia eu nunca era. Muito diferente do universo quencaracolismundi.wordpress.com circundava algumas amigas, diga-se de passagem que muitas vezes quis parecer com a maioria delas. Pensando bem, acho que passei a maior parte da minha vida querendo ser ou parecer outra pessoa que não fosse comigo, minhas irmãs, minha mãe, nem ninguém que tivesse a mesma cor, lábios, olhos, cabelos semelhantes aos meus. Ser preta é pra sempre, eu pensava. Poderia esconder o que fosse de qualquer pessoa, mas a minha cor que lembrava aqueles do passado empoeirado nos quadros da parede eu nunca poderia esconder de ninguém. Lembro que certa época um rapaz negro quis ficar comigo e a resposta foi um não redondo, primeiro porque nunca havia olhado um cara negro, não me interessava, claro. Se eu nem me achava bonita, porque acharia ele então? Não sei nem porque falou comigo. E eu estava interessada em outro princepezinho... Na época nem me dava conta o quão invisível eram os rapazes negros para mim e o quão recorrente era o meu interesse pelos príncipes.
Hoje algumas dessas lembranças podem ser acessadas por mim. Hoje esse texto pode ser escrito sem receios, engasgos, vergonha. Isso porque ao longo da minha caminhada por entre diferentes lugares, pessoas e leituras possibilitaram-me o mergulho em mim mesma para compreender porque algo estava faltando – eu mesma.
As vivências com práticas culturais afro-brasileiras e o interesse crescente pelo feminismo contribuíram muito para esse processo de redescoberta e após 24 anos eu finalmente pude falar para alguém como é ser negra num mundo branco. Hoje, grito ao vento. Comecei a perceber então que ser uma preta que fala é bem melhor do que permanecer muda, submissa, alienada de mim. Devagar eu percebia que “o sempre vou ser preta” significava o meu estar no mundo e que se essa significação enfim irrompesse pra mim não haveria volta. Agora, sobre o feminismo hoje compreendo que não me contempla se não me posiciono dentro do feminismo negro, pois enquanto mulher eu sofro a opressão sexista, enquanto negra sou oprimida pelos racistas. Respiro. Pois então, a violência é dupla.
Sobre o processo pelo qual passei gosto sempre de trazer luz à fabulosa acadêmica e militante ímpar Lélia Gonzalez: a gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista. E foi por aí que descasquei a tez, despi a máscara… e parece tão simples, tão óbvio o pensamento hoje que não sei como todas as vivências se misturaram e chegaram a essa arrebentação de mim, sei da libertação.
Empretecer-se, empoderar-se enquanto mulher negra que sofre por ser o completo avesso ao padrão estético imposto, que sofre por não ter lugar reservado fora dos estereótipos cotidianamente afirmados pela mídia, pela escola, pelos salários mais baixos reservados no mercado, pelos filhos jogados nas valas, pelos amigos reprodutores do racismo, pela minha reprodução do racismo, a mulher que sofre sem muitas vezes nem compreender o porquê.
 Só que claro que não foi fácil, cresci querendo ser o que não era por aprender que nunca fui boa o suficiente em nada, a TV me ensinou, a escola me mostrou e minha família não semeou porque com eles também foi assim, e com quem veio antes, mas os mais anteriores ainda foram ensinados no corte da carne e no tronco. O passado dos meus começou a ser uma presença cada vez mais latente, a minha figura no espelho me incomodava muito e percebi que minha estética, meu corpo, pelo qual fui negada tantas e tantas vezes, o qual eu mesmo neguei é a minha maior ligação com a história dos meus ancestrais — a cultura é inevitavelmente solúvel, modificável no tempo, a matéria não, o corpo bruto resiste!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A pizza, o green card e os "mal-entendidos": sobre ser latina nos Estados Unidos

Míriam M. C. Garrido, doutorando do curso de História na
Unesp, campus de Assis
Como mulher e brasileira que adora viajar já presenciei muitos tipos de preconceitos e situações constrangedoras. Bom, ok, não vamos “dourar a pílula”, vivenciei em muitas das minhas viagens preconceitos e assédios que me constrangiam e me deixavam impotente diante de um homem que exercia seu poder de opressão por ser homem e autóctone no espaço onde eu era apenas uma turista.
Uma vez fui a Fortaleza com meu irmão mais novo. Toda vez que pedia indicações às pessoas nas ruas as respostas eram direcionadas ao meu irmão (homem) e não a mim que havia feito a pergunta. Ali aprendi que os homens devem nos guiar nas viagens. Ou quando fui a  Lisboa e um senhor simplesmente me agarrou pela cintura e me suspendeu porque havia sorrido para mim e eu retornei o sorriso. Com pedidos agressivos de “onde é seu hotel” aprendi que além de guiada por homens eu também não podia sorrir nas ruas.
Mas agora me vejo numa situação totalmente nova. Estudante de doutorado estou morando nos Estados Unidos, uma vez que, minha pesquisa sobre militância negra brasileira tem revelado afinidades com os movimentos negros estadunidenses das décadas de 1960 e 1970. Aqui aprendi que sou mulher, latina, brasileira e outras coisas de que não me havia apercebido.
O título do texto parece estranho não? Estranho ou não ele ajuda a explicar um dos maiores estranhamentos que tive nas primeiras semanas da minha chegada aos E.U.A. Na primeira casa onde morei conheci um homem americano (40 anos), que sabia da minha condição de estrangeira obviamente. Dizendo-se interessado em me mostrar onde eu poderia comprar comida e outras coisas necessárias à minha adaptação ele se prontificou em levar-me ao mercado mais próximo, e coisas semelhantes.
Ótimo, ajuda sempre é bem vinda e as pessoas que moram a mais tempo em determinadas cidades sempre sabem os melhores lugares e os mais baratos.
No terceiro dia que o rapaz foi a casa (o que no Brasil poderia ser considerado uma república estudantil) ele perguntou se eu tinha fome e que ali próximo havia uma pizzaria. Porquê não? Eu fui... Durante o caminho para atravessar a avenida ele segurou a minha mão (ok, deve ser porque a avenida era movimentada, mas em seguida eu desvencilhei minha mão), depois me disse que era para eu me sentir segura, pois agora tinha alguém para olhar por mim (opa, com 30 anos, divorciada, me sustentando sozinha a mais ou menos 10 anos, nunca precisei de alguém “para olhar por mim”, por que eu precisaria agora?), e a conversa foi ao clímax quando ele sugeriu que talvez eu pudesse ficar definitivamente nos Estados Unidos, pois, ele casaria comigo vialibilizando assim meu pedido do green card.
“Pera”, como assim? Em que momento eu disse àquele homem que eu desejava morar nos Estados Unidos por tempo indeterminado ou me tornar “cidadã americana”? em que momento eu dei a entender que era uma pessoa (mulher) frágil que necessitava de cuidados de outrem? Em que momento eu permiti certas aproximações físicas que ele tentava mais enfaticamente após revelar as verdadeiras razões para a sua “prestatibilidade”?
Agora penso que as indagações que me passaram à mente naquele momento muito se assemelham às vítimas de violências que se sentem culpadas pelas ações do outro... Quantas mulheres saem às ruas todos os dias para trabalhar e estudar e são interrompidas – de inúmeras formas – por homens que acreditam estar exercendo seu direito de dominar uma outra pessoa? Quantas mulheres sofrem violências físicas e psicológicas (na família, na escola, no emprego) todos os dias? E o pior de tudo isso, quantas de nós mulheres não começamos a nos questionar “E se eu tivesse ido por uma rua mais movimentada? E se eu estivesse usando calças? Será que deixei ele pensar que podia fazer isso comigo?”. Não, isso não é justo comigo.
Pelo que depois me explicaram as brasileiras intercambistas, ao encontrá-lo pela terceira vez e aceitar uma pizza eu estava aceitando o “date”, ou seja, estava saindo com aquele homem. Novamente eu me senti impotente na minha condição de mulher e turista, mas agora também brasileira, que aos olhos do estadunidense é a tradução da busca pelo american dream. Só que eu não estava interessada em nada daquilo. Nem ter um “date” nem me tornar cidadã estadunidense. Repito, minha primeira reação foi pensar em que momento eu deixei implícitas essas coisas para aquele homem, mas com o tempo percebi que nada do que eu fiz ou disse indicava nenhum daqueles pré conceitos estabelecidos por aquele indivíduo.
Infelizmente grande parcela dos imigrantes brasileiros ainda vêem o casamento como uma forma de entrar para a sociedade estadunidense e garantir assim maior acesso ao bem estar social, aos bens de consumo e a elevação do status quo. Isso me foi explicitado por várias outras brasileiras em diferentes ocasiões. Mas em que medida essas mulheres também não são vítimas inconscientes de um estereótipo lançados sobre nós mulheres, latinas e brasileiras?
O texto não tem uma conclusão, eu ainda vivo aqui e estou tentando aprender a conviver com a frieza americana e a coisificação do corpo da mulher (latina de uma forma geral), mas com o texto proponho uma reflexão: até quando vamos nos sentir culpadas pelos “santos assédios de cada dia”?

domingo, 8 de novembro de 2015

A objetificação da mulher lésbica

Maria Eugenia, estudante do
curso de Psicologia, Unesp,
campus de Assis
Desde que nos conhecemos por gente, nós mulheres temos nossos corpos, desejos e sexualidades domados e limitados com imposições sociais, deturpadas noções de certo e errado, renegados por preceitos religiosos que muitas vezes nem fazem parte das nossas crenças pessoais.  É nos imposto o exercício da feminilidade, da docilidade, da ternura. Os “modos de menina” sempre faz com que nossa liberdade seja pouco a pouco tolhida, ainda nos verdes anos, diante de orientações daqueles que, teoricamente, só querem o nosso bem.

No início da adolescência, nos vemos diante de mais uma imposição, dessa vez a heterossexualidade compulsória. No entanto, muitas vezes o desejo, esse cujas correntes sociais não são capazes de prender e brota feito um rio que não se pode represar, não corresponde com as expectativas sociais.  Daí então se inicia uma sequência de questões e conflitos, desde a autoafirmação até a objetificação sexual.

Nosso corpo é visto como a serviço do masculino e o mesmo se supõe quanto ao nosso desejo. E quando nele não cabe o prazer do homem, eles o julgam incompleto. Das tantas violências sofridas, a objetificação da mulher lésbica é uma das mais agressivas. Cerceia nossos desejos, nossa expressão de afeto, nosso espaço e nossos direitos.

Nem nosso corpo, nem nosso desejo e nem nossas relações estão a serviço do prazer masculino. É direito da mulher lésbica ter sua relação reconhecida, respeitada e não objetificada em espaço algum. O corpo da mulher é dela e somente de quem ela deseja que seja. Não estamos e nem estaremos a mercê do desejo de quem não nos agrada.