sábado, 26 de novembro de 2011

Vícios dos lugares pequenos



Muita gente não imagina uma das verdades mais inquientantes  sobre a vida: Se não ultrapassas os limites da tua cidade, corres o risco de pensar que não há mundo para além do lugar em que vives. Que a tua vila é a mais organizada que se pode conceber, não aprendes a revoltar-te contra o mundo e por isso, guerras mundiais não passarão de teorias conspiratórias para ti.
Demorei um pouco para entender essa idéia e mais ainda para aceitá-la, pois, meu patriotismo mal amadurecido sentia-se ofendido com uma sentença como essa. Para ser honesto, só a entendi plenamente quando fui obrigado a mudar de cidade e não só a entendi, mas também passei a apregoá-la aos meus amigos de forma entusiástica. Infelizmente, a maioria ainda ofendia-se, pois não se tinha libertado do síndrome do melhor lugar do mundo, que é basicamente negar tudo o que não seja conhecido, acreditar que respiramos o ar mais puro do planeta e estamos em contacto com a natureza,   esquecendo-nos convenientemente que aquilo é resultado de um subdesenvolvimento crônico, caminhar grandes distâncias com a crença de que é pelo bem da nossa saúde, quando na verdade, a falta de transportes públicos é a única razão. Viver apenas de uma agricultura de subsistência por causa da nossa desorganização intencional e doentia, apoiar projetos elitistas, que surgem camuflados de iniciativas de melhoramento da vida dos mais necessitados, desviando a nossa atenção do apartheid que produzimos quase voluntariamente,  justificado pela necessidade neurótica dos sobados nacionais de viverem de luxos injustificados ou mal explicados e sempre aceitando coisas com as quais não concordamos por causa de um costumeiro paternalismo que nos faz acreditar que algumas pessoas são insubstituíveis e supercompetentes, mesmo que a sua inépcia já tenha sido promovida a uma negligência propositada das coisas que a maioria das pessoas acha importantes para viver.
Por vivermos em cidades pequenas, não perdemos tempo com este tipo de idéias, que quase sempre são tomadas como conspirações planificadas deliberadamente para desfazer o suposto equilíbrio dessas nossas vilas, tão subdesenvolvidas e pedregosas quanto as nossas próprias cabeças, que se subjugam a uma realidade sobre a qual nunca se reflecte de uma maneira crítica e assim continuamos, tão pequenos quanto as nossas próprias cidades.

domingo, 30 de outubro de 2011

Hospitais são lugares sombrios

Que hospitais são lugares sombrios, todos sabemos, e principalmente se considerarmos o seu quotidiano e a forma como os agentes de saúde exercem a sua autoridade, sem medo de serem repreendidos e aparentemente sem sequer uma consciência que os mobilize a evitarem que os paciente se sintam responsáveis por um adoecimento que é uma fatalidade, um evento natural, uma espécie de inevitabilidade fisiológica. Na minha terra, costumo ouvir as  mais variadas histórias sobre assombrações noturnas e manifestações de fenômenos dificilmente explicáveis pela lógica humana, mas isso em geral não me assusta tanto, afinal, o quotidiano africano está povoado destas histórias sejam elas dentro ou fora dos hospitais, mas já não vejo com a mesma leveza, o tratamento dos pacientes, porque ainda que a barbárie com que se tratam os doentes se tenha tornado um lugar comum, é mais difícil de aceitar, pois diferente de uma crença alimentada pelo nosso misticismo crônico, trata-se de mostrar o mínimo de humanidade com os outros. É também exercício de profissionalismo e responsabilidade pelo resultado positivo de seu trabalho.

Com certeza nunca ninguém quis adoecer, mas hoje, a idéia de ter que entrar para um hospital torna a pessoa mais fragilizada, pois tem que preparar-se para as humilhações médicas, para o descaso perante o seu sofrimento e para um tratamento abjecto, ou seja, a pessoa nem mais é reconhecida como alguma coisa, é um nada que importuna o merecido descanso do enfermeiro e a sábia concentração do médico.

Ninguém nega a importância deste serviço e exactamente por isso as pessoas ainda se sujeitam ao deplorável tratamento que recebem, às vezes mesmo em clínicas privadas, desde diagnósticos viciados a tratamentos abusivos. E nestes casos, mesmo quando a esperança já não parece uma virtude necessária ainda vivemos dela, apenas para justificar a nossa mísera existência que depende cada vez mais de profissionais aparentemente sem o menor respeito pela vida e dignidade humanas e o pior é que agora até as excepções dependem de um absurdo nepotismo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mitos perigosos


Hoje acordei com uma grande vontade de descobrir a verdade por detrás daqueles mitos que se eternizam no nosso seio, entender a sua importância e porque continuam a motivar comportamentos irracionais mesmo no nosso tempo, que é até considerado altamente desenvolvido, pois segundo a crença geral, nunca tivemos tantos recursos disponíveis quanto agora, o que não deixa de ser um verdadeiro mito. Afinal, as sociedades sempre atingiram altos picos de desenvolvimento tecnológico e humano. E quase sempre esse foi exactamente  o seu Calcanhar de Aquiles. Cada fase de ouro, que caracterizava as civilizações antigas foi o prenúncio de um grande cataclismo. Impérios desintegraram-se, civilizações inteiras desapareceram, reinos desmoronaram, deixando apenas como prova de sua implosão, hipóteses duvidosas de sua existência.
Foi assim com os Astecas, com os Maias, com o Império Romano e até com o reino do Congo. Porém, queremos convencer-nos de que hoje temos métodos para tornar as nossas ditaduras mais duradoiras e supõe-se que toda a modernice dos exércitos actuais será uma apólice de seguro eterna. Que prisões e mortes clandestinas evitarão que cadeiras sejam desocupadas desavisadamente ou que o povo faça um levante de forma inesperada, o que nos leva a outro mito: “A massa é burra, não pensa por conta própria”. Engana-se quem acredita nisso e também quem acredita que ela é inerte como uma rocha, pelo contrário, é como uma lava vulcânica que jaze pacientemente adormecida, apenas a espera do limite. Apenas a espera do momento para acordar (transbordar) e fazer alguma coisa a respeito e quando isso acontecer vai ser uma verdadeira catástrofe, aliás, tem sido assim em outros lugares há milênios, foi assim recentemente na febre dos países árabes, quando outro mito foi destronado: “A religião é o ópio do povo”, porque apesar de muito religiosos eles não pareceram dopados quando reclamaram pela dignidade que há muito lhes havia sido usurpada, fazendo-nos pensar quase instantaneamente que também a idéia: “Pobre não tem dignidade” é outro mito facilmente destrutível, pois, logo ficou claro que apenas pobres de espírito não têm dignidade, ou contentam-se em tê-la tão pouca que acabam não reivindicando. E dessa forma eu espero para bem dessa pequena aldeia da humanidade, que vários outros mitos que nos paralisam e nos fazem pensar de forma tão diminuída sejam paulatinamente derrubados e o maior de todos eles, seja também o mais brutalmente atacado, porque sinceramente, é inadmissível que “A ignorância possa ser uma benção”.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Meu amigo gordo

Eu tenho, um amigo gordo, que circula de dieta em dieta, tentando chegar ao corpo iedial. Eu acho que gostaria de dizer-lhe que não existe tal coisa, que é pura ilusão criada por propagandas enganosas, mas ele não acreditaria  em mim, pois tenho o corpo que ele gostaria, então,  quando ele está triste e deprimido por não conseguir subir cinco degraus sem que seu corpo pareça estar a entrar em colapso, eu me sento ao seu lado, solidariamente, fingindo hipocritamente uma dor qualquer, sem peso de consciência, tal como acontece em muitas outras circunstâncias em que essa  falsidade  nos coloca  à salvo da nossa covardia, sorrindo quando queremos chorar, abraçando quando temos uma grande vontade de esganar, ou escondendo os nossos desejos sexuais com cantadas superficiais ou mais triste ainda, aplaudindo discursos xenôfobos  e facistas, justificando essa atitude com um falso racionalismo e desculpas que jamais admitiaríamos de outros. Infelizmente, meu país tambpém está povoado de pessoas parecidas ao meu amigo, que precisam dessa charlatanice para continuarem a viver confortavelmente a sua mórbida ignorância satisfazendo-se com uma palmadinha solidária de vez em quando e deixando-se enganar pela aparente tranquilidade da situação. E como não podia deixar de ser, também tem outros parecidos à mim, com meu senso de humanidade decadente que pensam (se é que realmente são capazes disso) que sua “humilde” hipocrisia é uma questão de bom senso.

sábado, 27 de agosto de 2011

Narcisistas apaixonados

Há alguns dias estava a pensar naqueles momentos em que se vive que nem um vegetal, sem sair do sofá, sozinho, alimentando-se de objetivos quase inalcansáveis de sonhos que dificilmente se materializarão e de programas que praticamente vendem-se ao diabo por audiência, em que fala-se sobre tudo o que não é importante, ou é considerado fútil pelas mesmas pessoas que assistem apenas para levantar sua auto-estima, já que com personagens bizarras tentam convencer a audiência que sua auto-estima é o seu maior património. De tanto assistir a estes programas  já me convenci que preciso ser sempre o mais bonito, o mais inteligente, o mais capaz, o mais etc., já que ser menos alguma coisa pode ser um quadro grave de baixa auto-estima. Felizmente, já existe cura e para os casos crônicos, até um tratamento, que “apenas” exige que compremos o nosso bem estar de todas as maneiras possíveis. – Gastando aquelas horas ociosas nos fantasiando de príncipes e princesas, ou barbies em tamanho natural, tentando garantir a auto-estima com esquemas de beleza que não duram mais do que 15 minutos, ou escondendo nosso medo de paracer ignorantes com discursos ensaiados e títulos desnecessários, que apenas nos tornam especialistas nas coisas que não nos fazem a menor falta; e quando isso não bastar, sempre nos sobram os programas de domingo à tarde que parecem livros de auto-ajuda já que nos deixam cada vez mais apaixonados por nós mesmos.