Ninguém
é mais revolucionário do que um recém nascido, ele não tem medo de nada, é tão
corajoso que lembra os heróis dos filmes épicos, que não se importam com o
risco, apenas vão à luta e praticamente atiram-se às espadas alheias guardando
para si mesmos, apenas a promessa de uma morte honrada e patriótica. Eles
também são um bom exemplo de como deve ser uma verdadeira democracia, onde os
menores são servidos pelos maiores. As pessoas trocam-lhes as fraldas, dão-lhes
de comer e os protegem com uma abnegação admirável, eles sim, exercem o seu
direito à liberdade de expressão e isso talvez seja o mais fascinante, não se
deixam enganar e berram, literalmente sempre que sentem os seus direitos
desrespeitados. Infelizmente, enquanto crescemos, desaprendemos todas essas
coisas e nos deixamos convencer que
deixar de exigir os nossos direitos é falta de educação, ou ficamos melindrados
com justificações incoerentes sobre a prestação medíocre da governança, que se
defende com o nosso desinteresse na participação da vida pública, ou com a
nossa ignorância sobre o funcionamento de algo tão complexo, quanto a máquina
organizativa do Estado, que é com certeza muito diferente de tudo o que estamos
acostumados a gerir, mas quando essa falácia já não é suficiente, nos convencem
que somos especiais e que isso é a única coisa que realmente importa, apenas
para não berrarmos tanto quanto crianças birrentas dispostas a fazer passeatas,
marchas e manifestações que ameaçariam aquilo que eles consideram segurança
pública, que nada mais é do que uma tranqüilidade ilusória, já que tudo que a
mantém depende de uma formatação generalizadas e propositada das nossas cabeças,
algo que é alimentado por uma ignorância crônica e um medo injustificado de berrar
que nem bebês, afinal, eles são o último de exemplo de um verdadeiro revolucionário.
domingo, 4 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Amor à camisola
Dizem que houve um tempo em que muitos alunos queriam ser professores e queriam aprender alguma coisa, porque tinha
alguém que fazia um esforço obstinado para ensiná-los. Em que considerar os
professores enciclopédias ambulantes não era um exagero, claro que foi antes da
invenção do Google, quando ainda podiam dar-se ao luxo de dizer, que se não
concordavam é porque estava errado e se não tinham ouvido falar é porque não
existia, quando amor à camisola ainda era um argumento aceitável para qualquer
profissão. Muito antes desse paraquedismo ridículo de profissionais, que tem
transformado a profissão numa instância de reaproveitamento de todo o tipo de
incompetências e negligências propositadas, sem contar o acobertamento da
realidade de profissionais que se prostituem mentalmente para garantir uma
reserva estratégica da pouca dignidade, que ainda mantêm. Pelo visto, aquela
caricatura de um homem magro de tanto inventar soluções para os problemas do
seu difícil quotidiano, ainda não deu lugar, ao barrigudo e bem vestido senhor,
mesmo que infelizmente, a idéia romântica de homem justo, que proclama idéias
libertárias na sala de aulas, intercalando com gritos revolucionários tentando
problematizar todos os discursos políticos dos jornais nacionais, contestando
políticas públicas recentemente divulgadas, ou debatendo-se contra a
inconsistência das leis que se promulgavam diariamente, substituiu-se por um
conformismo perigosamente vicioso, que algumas pessoas defendem com argumentos convenientemente confusos.
sábado, 26 de novembro de 2011
Vícios dos lugares pequenos
Muita gente não imagina uma
das verdades mais inquientantes sobre a
vida: Se não ultrapassas os limites da
tua cidade, corres o risco de pensar que não há mundo para além do lugar em que
vives. Que a tua vila é a mais organizada que se pode conceber, não aprendes a revoltar-te
contra o mundo e por isso, guerras mundiais não passarão de teorias
conspiratórias para ti.
Demorei um pouco para
entender essa idéia e mais ainda para aceitá-la, pois, meu patriotismo mal
amadurecido sentia-se ofendido com uma sentença como essa. Para ser honesto, só
a entendi plenamente quando fui obrigado a mudar de cidade e não só a entendi,
mas também passei a apregoá-la aos meus amigos de forma entusiástica.
Infelizmente, a maioria ainda ofendia-se, pois não se tinha libertado do síndrome do melhor lugar do mundo, que
é basicamente negar tudo o que não seja conhecido, acreditar que respiramos o
ar mais puro do planeta e estamos em contacto com a natureza, esquecendo-nos convenientemente que aquilo é
resultado de um subdesenvolvimento crônico, caminhar grandes distâncias com a
crença de que é pelo bem da nossa saúde, quando na verdade, a falta de
transportes públicos é a única razão. Viver apenas de uma agricultura de
subsistência por causa da nossa desorganização intencional e doentia, apoiar
projetos elitistas, que surgem camuflados de iniciativas de melhoramento da
vida dos mais necessitados, desviando a nossa atenção do apartheid que
produzimos quase voluntariamente, justificado pela necessidade neurótica dos
sobados nacionais de viverem de luxos injustificados ou mal explicados e sempre
aceitando coisas com as quais não concordamos por causa de um costumeiro
paternalismo que nos faz acreditar que algumas pessoas são insubstituíveis e
supercompetentes, mesmo que a sua inépcia já tenha sido promovida a uma
negligência propositada das coisas que a maioria das pessoas acha importantes
para viver.
Por vivermos em cidades
pequenas, não perdemos tempo com este tipo de idéias, que quase sempre são
tomadas como conspirações planificadas deliberadamente para desfazer o suposto
equilíbrio dessas nossas vilas, tão subdesenvolvidas e pedregosas quanto as
nossas próprias cabeças, que se subjugam a uma realidade sobre a qual nunca se reflecte
de uma maneira crítica e assim continuamos, tão pequenos quanto as nossas
próprias cidades.
domingo, 30 de outubro de 2011
Hospitais são lugares sombrios
Que hospitais são lugares sombrios, todos
sabemos, e principalmente se considerarmos o seu quotidiano e a forma como os
agentes de saúde exercem a sua autoridade, sem medo de serem repreendidos e
aparentemente sem sequer uma consciência que os mobilize a evitarem que os
paciente se sintam responsáveis por um adoecimento que é uma fatalidade, um
evento natural, uma espécie de inevitabilidade fisiológica. Na minha terra,
costumo ouvir as mais variadas histórias
sobre assombrações noturnas e manifestações de fenômenos dificilmente
explicáveis pela lógica humana, mas isso em geral não me assusta tanto, afinal,
o quotidiano africano está povoado destas histórias sejam elas dentro ou fora
dos hospitais, mas já não vejo com a mesma leveza, o tratamento dos pacientes,
porque ainda que a barbárie com que se tratam os doentes se tenha tornado um
lugar comum, é mais difícil de aceitar, pois diferente de uma crença alimentada
pelo nosso misticismo crônico, trata-se de mostrar o mínimo de humanidade com
os outros. É também exercício de profissionalismo e responsabilidade pelo
resultado positivo de seu trabalho.
Com certeza nunca ninguém quis adoecer,
mas hoje, a idéia de ter que entrar para um hospital torna a pessoa mais
fragilizada, pois tem que preparar-se para as humilhações médicas, para o descaso
perante o seu sofrimento e para um tratamento abjecto, ou seja, a pessoa nem
mais é reconhecida como alguma coisa, é um nada que importuna o merecido
descanso do enfermeiro e a sábia concentração do médico.
Ninguém nega a importância deste
serviço e exactamente por isso as pessoas ainda se sujeitam ao deplorável tratamento
que recebem, às vezes mesmo em clínicas privadas, desde diagnósticos viciados a
tratamentos abusivos. E nestes casos, mesmo quando a esperança já não parece
uma virtude necessária ainda vivemos dela, apenas para justificar a nossa
mísera existência que depende cada vez mais de profissionais aparentemente sem o
menor respeito pela vida e dignidade humanas e o pior é que agora até as
excepções dependem de um absurdo nepotismo.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Mitos perigosos
Hoje
acordei com uma grande vontade de descobrir a verdade por detrás daqueles mitos
que se eternizam no nosso seio, entender a sua importância e porque continuam a
motivar comportamentos irracionais mesmo no nosso tempo, que é até considerado
altamente desenvolvido, pois segundo a crença geral, nunca tivemos tantos
recursos disponíveis quanto agora, o que não deixa de ser um verdadeiro mito. Afinal, as sociedades sempre atingiram altos picos de desenvolvimento tecnológico e
humano. E quase sempre esse foi exactamente
o seu Calcanhar de Aquiles. Cada fase de ouro, que caracterizava as civilizações
antigas foi o prenúncio de um grande cataclismo. Impérios desintegraram-se,
civilizações inteiras desapareceram, reinos desmoronaram, deixando apenas como
prova de sua implosão, hipóteses duvidosas de sua existência.
Foi
assim com os Astecas, com os Maias, com o Império Romano e até com o reino do
Congo. Porém, queremos convencer-nos de que hoje temos métodos para tornar as
nossas ditaduras mais duradoiras e supõe-se que toda a modernice dos exércitos
actuais será uma apólice de seguro eterna. Que prisões e mortes clandestinas evitarão
que cadeiras sejam desocupadas desavisadamente ou que o povo faça um levante de
forma inesperada, o que nos leva a outro mito: “A massa é burra, não pensa por
conta própria”. Engana-se quem acredita nisso e também quem acredita que ela é
inerte como uma rocha, pelo contrário, é como uma lava vulcânica que jaze
pacientemente adormecida, apenas a espera do limite. Apenas a espera do momento
para acordar (transbordar) e fazer alguma coisa a respeito e quando isso
acontecer vai ser uma verdadeira catástrofe, aliás, tem sido assim em outros
lugares há milênios, foi assim recentemente na febre dos países árabes, quando
outro mito foi destronado: “A religião é o ópio do povo”, porque apesar de
muito religiosos eles não pareceram dopados quando reclamaram pela dignidade
que há muito lhes havia sido usurpada, fazendo-nos pensar quase
instantaneamente que também a idéia: “Pobre não tem dignidade” é outro mito
facilmente destrutível, pois, logo ficou claro que apenas pobres de espírito
não têm dignidade, ou contentam-se em tê-la tão pouca que acabam não
reivindicando. E dessa forma eu espero para bem dessa pequena aldeia da
humanidade, que vários outros mitos que nos paralisam e nos fazem pensar de
forma tão diminuída sejam paulatinamente derrubados e o maior de todos eles,
seja também o mais brutalmente atacado, porque sinceramente, é inadmissível que
“A ignorância possa ser uma benção”.
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