sábado, 21 de junho de 2014

O caminho é o que se inventa enquanto damos uma voltinha pela vida!


Este é um pensamento sobre o qual não costumamos a gastar muito tempo, o que faz parecer que cada vez nos preocupamos mais em obter receitas, trajetórias já percorridas e/ou autobiografias para copiá-las, supondo que a recriação dos cenários, ou de tais rotas nos levará à descoberta novas, vibrantes e diferentes. Porém, quando muito nos levarão de volta a lugares comuns, àqueles que já conhecemos e que reproduzem nada mais do que antigas e desnecessárias angústias. Por isso precisamos de rupturas! De aprender enquanto fazemos e de desaprendermos velhos vícios, pois isso talvez nos traga algo mais positivo, mesmo que mais trabalhoso. Ao menos, teremos a certeza de que as angústias que assim se produzem, serão nossas e autênticas. O segredo, se é que se pode dizer que exista algum, é seguir o “Jurandir” e esperar que no caminho ele teorize conosco, dando-nos a oportunidade de descobrir, que não há caminho enquanto não nos dispormos a andar, enquanto não nos mobilizamos a fazer o passeio que eventualmente nos levará a descobrir os atalhos, as pedras, as irregularidades do percurso. E assim, caminhar não será simplesmente isso, mas também um processo artístico, no sentido em que tal como o escritor, só no fim da sua escrita poderá dizer se criou uma poesia ou um conto, mesmo que de qualquer forma, não tenha deixado fazer arte. De forma parecida, nossa corridinha, dificilmente poderá ser algo diferente de uma caminhada sobre a areia às vezes áspera, às vezes macia, mas que sempre massageia nossos pés, numa manhã friorenta, ou numa tarde romântica e morna como os corações daqueles que são nossa companhia nessas corridinhas pela vida, onde descobrimos, essas coisas que não se deixam seduzir por experiências previamente biografadas.
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Mais uma vez, agradeço aos meus colegas da Incop-unesp de Assis, pela maravilhosa quarta em que tive a oportunidade de pensar a respeito das muitas caminhadas que venho feito, especialmente ao professor Carlos Ladeia, que despoletou estas e outras reflexes.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vida e outras ditaduras

Meu compadre de ideias constrangedoras reapareceu, depois de um longo período de ausência. Ele sempre surge como se tivesse a função de me beliscar com questões provocantes, desta vez chegou bufando palavras escarnecedoras sobre ditaduras e como estava num daqueles dias em que se sentia inspirado a falar de maneira metafórica foi teorizando com um à-vontade quase caricatural, fazendo gestos enérgicos para dar ênfase à sua fala.
- Vou falar sobre algumas ditaduras da vida, melhor, vou falar sobre o sono. Por que ditaduras são como o sono! Disse de maneira grave.
Como já me acostumei às suas excentricidades explicativas, nem fiz menção de questioná-lo, preferi em vez disso apenas ouvi-lo, com a esperança de que no final conseguisse ao menos melhorar meu humor, que escondia minhas várias revoltas com o aumento desenfreado do custo de vida absolutamente desproporcional aos salários dos trabalhadores, obrigados a viverem de empréstimos com juros desnecessariamente abusivos e desonestos, a exploração desenfreada da força de trabalho sem compensação justa, a exposição das nossas crianças à cenas cotidianas de uma violência gratuita e injustificada vinda precisamente de quem deveria oportunizar espaços mais participativos e menos excludentes, o autoritarismo constitutivo da maioria das instituições públicas e várias outras atrocidades sociais, políticas e econômicas.
                Meu amigo começou dizendo que o sono é um pequeno e inoportuno ditador. Por exemplo, disse tentando ilustrar com exemplos seu ponto de vista.
- Imagina-te numa reunião ouvindo corajosamente aquelas informações sempre excessivas de um chefe que não tem noção do quão irritante é a gravidade teatral usada para apresentar assuntos que se confundem entre o que é urgente e o que é importante e enquanto você é obrigado a suportar toda aquela falácia, aparece uma vontade inadvertida de dormir. O sono entra assim sem pedir licença, sem mandato, nem qualquer autorização legal, sem ouvir sequer tuas reivindicações sobre querer se manter acordado só para garantir aquele contingente básico de hipocrisia exigida pelas convenções sociais. De vez em quando você toma uma pilulazinha, que pode até ajudar a resistir por mais um pouco àquela ditadura inconsequente ao custo da perda da possibilidade de experimentarmos certos exercícios de autodeterminação e singularização, porém, em momento algum esse tirano nos deixa esquecer que tal relação está longe de ser democrática, participativa e/ou minimamente honesta. Não há consulta da nossa vontade, aliás, não há sequer o reconhecimento dela, por conseguinte, qualquer ato de reflexão e crítica é automaticamente criminalizado e o infrator, penalizado com longas horas de insônia a que claro seguem-se outras consequências e torturas que impressionam pelo seu conteúdo de sevícia.

Não há vontade ou desejo que se insurja sem sofrer consequências de tal maneira que com o tempo se vá construindo a ilusão de invencibilidade. Aos poucos nos convencemos de que resistir é impossível e comprovadamente ineficaz. Submetemos-nos aceitando pacificamente a situação e acreditando ser essa passividade um ato de inteligência, mas nosso olhar displicente e acusatório nos lembra constantemente de nossa falta de coragem e de como nos deixamos vencer por esse déspota, que impinge continuamente a nós e a outros seu reino de terror, pois ainda lhe resta a certeza de que aquela chama que nos convocava a resistir, se extinguiu por que aquela nossa rebeldia, que a animava, se corrompeu ou envelheceu junto com nossas utopias e vontade de mudança.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A Realidade é desobediente

Estava há dias numa reunião com colegas da faculdade, quando uma das presentes soltou uma frase que deixou meus fracos neurônios momentaneamente suspensos de tão criativa que ela me soou.
- A realidade é desobediente!

Ela deixou pairar a ideia sobre a sala, ainda por alguns instantes, enquanto a maioria de nós tentava se concentrar na profundidade daquela sentença, fazendo conexões mirabolantes com as situações que estávamos a discutir.
Eu adorei a frase, atirada assim, de rompante, sem nenhuma pretensão, mas que alcançou um efeito inesperado, porém, como já é meu vício conhecido, apropriei-me dela sem falsos pudores, imaginando exemplos vários em que ela (realidade) se comporta como uma criança birrenta, ou um adolescente com TOD (transtorno opositor desafiador), sem me esquecer da conveniente ressalva a respeito da desnecessária, mas quase imediata patologização do comportamento desse adolescente malcriado. É bem verdade que não deixei de parte a possibilidade de que o problema poderia ser também, um provável sintoma de uma sociedade inteiramente capenga e incapaz de lidar com o imprevisível. Porém, achei melhor me esforçar em abordar apenas a angústia causada pelas inconstâncias dessa criança irreverente e irrequieta, que com suas flutuações de humor nos obriga a reescrever constantemente nossos planos de longo prazo, aliás, parece até que nessa lógica seria mais aconselhável extinguir o “longo prazo” de nossos cronogramas, pois curto e médio parecem oferecer-se como nuances mais coerentes dessa parafernália cotidiana, que caracteriza nosso modo de vida supostamente moderno.

Contudo, enquanto aquele adolescente amadurece, sua rebeldia continua nos incomodando, agora mais fina e sofisticada de tal modo que aquela antiga angústia, antes experimentada apenas esporadicamente, vai-se tornando numa espécie de estado permanente, imbricando-se nas várias esferas de nossa vida (amorosa, familiar, profissional, etc.) e aquele adolescente rebelde se transforma num adulto intransigente e inflexível, elevando nossa angústia (a essa altura já patologizada) a um perigoso sentimento de frustração, devido à nossa impotência diante da tal realidade desobediente, que caprichosa nos obriga a prestar-lhe reverência.




[1] Dedico este texto ao pessoal da incubadora da UNESP-Assis (2009) especialmente à Soninha que disparou a frase e me possibilitou usá-la aqui.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sendo babaca e homem

      Nos últimos tempos tenho ouvido com frequência, ideias que explicam vários problemas sociais como tendo origem no fato de vivermos numa sociedade que produz pessoas problemáticas, como dá para imaginar, neste caso a culpa nunca é do nosso caráter, mas sempre de uma sociedade que educa de modo racista, machista, homofóbico e por aí fora. Assim até fica fácil justificar todos os problemas recorrendo a clichês e argumentos retóricos para arrazoar sobre atitudes totalmente irresponsáveis.
       Nós homens somos especialistas nisso, aproveitamos retóricas machistas e sexistas para argumentar a favor de nossos erros e babaquices, que incontáveis vezes produzem um sofrimento indesculpável às pessoas que dizemos que amamos.
       Assim, a traição nunca é culpa do cara, já que pode ser facilmente explicada pela educação (ou falta dela). Afinal, crescemos aprendendo que ser homem é entre outras coisas:
      
        Fazer alarde das nossas paqueras irresponsáveis, sem questionar se isso não soaria à desrespeito para a parceira, aliás, dane-se ela, porque eu tenho mesmo é de provar ser macho, deixando claro que meu ego precisa deste esforço desonesto para mostrar aos amigos aquela pose de  fodão, fazendo questão de desconsiderar inclusive os compromissos assumidos com minha parceira.
 
       Flertar com outras mulheres sem pensar no mal-estar que isso causará à relação na qual você entrou voluntariamente.
 
     Tornar o conceito de fidelidade, numa definição abstrata e nebulosa, só válida quando você pode se colocar como vítima.
 
      Defender que todas estas ações são nada mais do que “brincadeirinhas inocentes”, sem verdadeiras implicações. Porém, esta é uma mentira conveniente que esconde jargões igualmente mentirosos e perniciosos como:
 
       “Estas são coisas de homem!”,
       “Homens fazem isso mesmo!”
       “Isso é apenas homens sendo homens!”
 
       Todas estas e outras frases, tentam retirar a culpa pessoal dos homens levando a vítima (mulher) a acreditar que como homens não teriam outra opção que não comportarem-se como “porcos chauvinistas”, exercitando sua capacidade de serem babacas desonestos, porque mesmo que ninguém escolha nascer homem ou mulher, qualquer um escolhe ser uma pessoa melhor, mais honesta e educada com os outros.
       Neste sentido, nós homens precisamos passar a nos responsabilizar por nossas ações sem nos escudarmos em desculpas esfarrapadas que jogam toda a culpa de nossas peripécias inconsequentes e muitas vezes de uma falta de sensibilidade que beira a psicopatia, sobre o fato de sermos homens... e os homens serem assim mesmo!
 
 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cultura do fracasso. Por quê não?


Enquanto surfava pela internet, fingindo que procurava alguma coisa importante, me concentrando muito sério, de cada vez que entrava inadvertidamente nalgum site “’proibido”, para desviar a atenção de quem tentava monitorar o conteúdo das páginas que eu visitava, pela expressão do meu rosto; tropecei numa notícia desoladora num site de notícias: Fracasso escolar e vergonha levam estudantes ao suicídio na China”. Fiquei ainda mais pasmo com as estatísticas que o artigo apresentava; 287 mil pessoas se suicidam anualmente naquele país. E tudo por quê?
Fracasso! Simples assim.
Essas pessoas se sentiam fracassadas, algumas delas eram adultos, jovens e até crianças e adolescentes. Pensei comigo mesmo, aí está, uma das consequências dessa história de valorizar os acertos mais do que os erros, premiar as conquistas que sabem à vitória e emergem do nosso atroz quotidiano no qual somos obrigados a aniquilar colegas, amigos, familiares, enfim, pessoas que se deixássemos, com certeza acrescentariam testemunhos interessantes às nossas vidas descoloridas, por causa da ganância obsessiva com o primeiro lugar.
Somos premiados para não fracassar, ou pior, para fracassar jamais! Um imperativo tão custoso quanto fatídico, como no caso dos exemplos degradantes que a notícia nos reporta. Ali falava da China, mas não faltam exemplos nos vários recantos do mundo.
Estes suicídios deixam uma clara e assombrosa mensagem, a respeito do que temos produzido através daquelas práticas sociais que sancionam comportamentos como a competitividade, a agressividade, a busca de resultados sem preocupação com os meios, a exploração até a exaustão das potencialidades das pessoas em nome da necessidade de acompanhar as transformações sociotécnicas (como se isso fosse possível de alguma forma), a abreviação da infância, ou sua substituição por uma vida prematuramente adulta, etc., aliás, nossas crianças aprendem cedo que fracassar é garantir de modo inescrupuloso, sua exclusão do mundo social. Infelizmente, é neste ínterim que também acaba se criando a oportunidade ideal para os palpites pseudocientíficos dos autores da literatura de autoajuda, que fazem proliferar títulos como: 8 passos para o sucesso, 10 dicas para não fracassar, Em busca da excelência, etc., prestando um desserviço ao ensinar fórmulas reducionista sobre tudo, como se a vida se restringisse a medidas ortopédicas. Perdemos tempo procurando pílulas que aumentam a produtividade, diminuem nossa sensibilidade aos problemas pessoais e coletivos; tudo em vista de uma coisa chamada de sucesso.
Por quê o sucesso é tão valorizado? Qual o problema de errar em vez de acertar? Aliás, errar às vezes resulta em descobertas importantes, como a história nos tem ensinado.
O que tem de saudável, por exemplo, fazer os pais de primeira viagem pensarem que deviam saber tudo sobre como cuidar dos filhos recém-nascidos, nos esquecendo convenientemente de sua inexperiência, deixando-os desesperados por que não sabem nada sobre crianças e desconsiderando que este é um aprendizado que se faz na prática? Ou que vantagem existe em sobrecarregar nossas crianças ainda no jardim de infância com atividades que exigem uma destreza injustamente maior do que aquela que eles são capazes de demonstrar, apenas por causa dos demagogos que apregoam o sucesso a qualquer custo?
As notícias sobre suicídio de jovens devido ao suposto fracasso em várias esferas da vida demonstram de forma assustadora as consequências de uma ditadura irrefletida do sucesso.
O custo é elevado, está visto e manter-se omisso em relação às perdas, tem custado um preço alto para muitas pessoas e não raro a própria vida!