domingo, 11 de outubro de 2015

Amiguinho negro de estimação



Estou tentando há algum tempo rascunhar um texto em pudesse refletir um pouco sobre algo que se tem tornado para mim, cada vez mais incômodo.
O discursinho de que não sou preconceituoso, porque tenho um amigo oprimido!
Nos dias correntes, os infelizes usuários deste argumento têm a dupla surpresa de, por um lado, terem que lidar com uma rapidez quase indesejável da propagação de suas energúmenas ações, e por outro, com o crescimento da porção da sociedade, que não mais se indigna em silêncio, mas chama a atenção para os comentários e atitudes despropositados e irresponsáveis que somos forçados a ouvir muitas vezes de pessoas, de quem se espera o mínimo de bom senso.
Somos obrigados a sentir o incômodo antecipado de frases clichês do tipo:
Como eu posso ser racista? Eu até tenho um amigo negro!
Imagina se eu sou racista, eu tenho uma amiga negra e adoro o cabelo dela!
Não sou homofóbico coisa nenhuma. Vou pra festas gays, e um dos meus melhores amigos é gay!
Que é isso, adoro a comunidade gay!
Estes argumentos são usados de forma recorrente por pessoas que acabam visadas na mídia como racistas, homofóbicos, ou por qualquer outra forma de preconceito. Eles imaginam (supondo que seja pura ingenuidade) que ter um amigo negro, ou gay é prova inequívoca de que não são preconceituosos. E aproveitam-se do fato de terem tropeçado na vida, acidentalmente em algum negro para oferecer sua relação com este, como prova de que não podem ser racistas. A preguiça de usar seus neurônios, provavelmente ocupados em provar como suas relações interpessoais são racialmente democráticas, contradizem-se com uma propaganda altamente desrespeitosa da imagem do suposto amigo, transformando-o numa espécie de amiguinho de estimação, uma apólice para os casos de acusação de racismo, ou homofobia, conforme a situação.
Para estes seria no mínimo interessante ler a poesia de Elisa Lucinda (Mulata exportação), para entenderem que explorar a integridade do amiguinho já submetido à várias injustiças e desigualdades estruturantes desta sociedade, não é menos racista, ou homofóbico muito pelo contrário. Talvez fosse muito mais sensato, nestes casos, entender que: Você é racista – só não sabe disso ainda (Túlio Custódio) e tirar fotos com negros não é uma boa forma de diminuir o seu racismo, ou pior, sua estupidez e ignorância (acredite, é possível piorar!).
E como sempre o “destino” nos oferece algumas pérolas intragáveis, a da vez vem por meio de uma fotografia de um rapaz da Banda Fly, publicada por uma fã, que surge depois do mesmo ter sido repudiado por seu comentário racista na Revista Atrevida e como se não bastasse este comentário a fanpage da banda administrada por fãs decidiu adotar para os seus infinitos minutos de irresponsabilidade, um bebé negro para justificar sua suposta índole não-racista. Esta foto levanta sérias questões sobre o que se passa com esse rapaz, com a banda e com o gestor ou gestora daquele perfil, que para condimentar mais ainda tal atrevimento, vem com a seguinte legenda: “Beem Racista Hein?!.”
Esta/este fã, visivelmente ainda em desenvolvimento, esqueceu-se convenientemente (quem sabe?) de ter ao menos a consideração de apresentar a criança, ou seja, posta a foto, sem dizer o nome do seu “amiguinho negro”, deixando clara a “sua preocupação antiracista”  (continuo a torcer para que seja só ingenuidade das pessoas envolvidas), despersonalizando totalmente a criança.
Ela não é nada mais do que um simples adereço na fotografia do moço, que na sua cabeça, deve achar que deu ao bebé a possibilidade de ser um pouco famoso por ter posado com alguém, que claramente não se preocupou em considerar a integridade de um Ser que infelizmente nem tem meios de se defender e muito menos a possibilidade de dizer não! Àquele lugarzinho de animal de estimação (os pais com certeza terão algo a dizer).
A fotografia leva-nos a questionar  se não seria apenas um oportunismo de quem faz a gestão do perfil, porque infelizmente com ela a única coisa que se conseguiu foi expor irresponsavelmente uma criança, que nada tem a ver com a falta de discernimento das pessoas envolvidas.
E aproveitando para problematizar a legenda que a acompanha eu diria: “Não é menos racista do que foi o comentário!”
P.S.: De maneira alguma quero dizer que brancos não podem ter amigos negros e vice-versa, apenas trato de trazer para discussão o uso de amigo que fazem parte de minorias, ou maiorias minorizadas (negros, gays, lésbicas, transsexuais, etc.) para argumentar que não somos preconceituosos. Mais importante do que ostentar esses amigos é dispôr-se a discutir sobre como esses preconceitos precisam de ser desconstruídos diariamente por todos nós.

Publicado originalmente no portal Geledés em 09 de Outubro de 2015 neste link: http://www.geledes.org.br/amiguinho-negro-de-estimacao-tao-racista-quanto-seu-comentario/#gs.i16NBPE



Nenhum comentário:

Postar um comentário